O Carnaval de Pelotas ganhou um novo espaço de preservação da memória e da cultura popular com a criação do Espaço Artístico Cultural Ademir Operário. A iniciativa foi inaugurada como homenagem a Ademir Oliveira da Silva, também conhecido como “burro” da Cerquinha, fundador mór do Bloco Burlesco Candinhas da Cerquinha e uma das figuras mais emblemáticas da história carnavalesca da cidade.
Instalado no mesmo endereço, na rua Doutor Cassiano, 675, onde Ademir manteve por mais de cinco décadas o tradicional Armazém São Pedro, uma casa da década de 1930, que também funcionou como fruteira e bar, ponto de encontro da comunidade, o espaço transforma um local afetivo em patrimônio cultural. Ali, entre instrumentos, fotografias, objetos antigos e registros históricos, está preservada a trajetória de um homem que dedicou a vida à cultura, à convivência comunitária e ao Carnaval de rua.
Irreverência e crítica social
Fundado oficialmente em 1º de fevereiro de 1963, o Candinhas da Cerquinha nasceu a partir das saídas informais de Ademir e seus irmãos pelas ruas do bairro, ainda no início da década de 1960. O nome do bloco é uma homenagem bem-humorada às moradoras da Cerquinha, conhecidas pela convivência intensa e pelas conversas de porta em porta, naquela época.

(Foto: Jô Folha)
Com irreverência, crítica social, um pouco de poesia e identidade popular, o bloco se consolidou e se tornou um símbolo de resistência. Leandro Oliveira da Silva, um dos filhos de Ademir, que junto com a mãe dele, estão levando à frente esse legado, relembra que são 63 anos de desfile, um feito no Carnaval pelotense. Somente no ano passado, com a morte de Ademir Operário em 26 de janeiro, o bloco não saiu.
Segundo Silva, a Cerquinha, onde o bloco surgiu, é reconhecida como o berço do Carnaval de rua de Pelotas, palco desde os anos 1940 de manifestações como o “Carnaval dos Bichos”, como o Girafa da Cerquinha, hoje desativado, juntamente com outras entidades que ajudaram a moldar a identidade da festa. “Era bloco (Girafa da Cerquinha) depois virou banda, mas não sai mais. Tem remanescentes da Girafa que saem conosco”, comenta Silva. Nesse contexto, o Candinhas é hoje o mais antigo em atividade contínua.
Compositor e ensaiador
Ademir Operário foi mais do que fundador. Atuou como ensaiador, puxador, compositor e construtor artesanal de instrumentos, muitos deles feitos manualmente com couros preparados no próprio bairro. Também criou, em 1983, o Conjunto Vocal Lobos da Cerca, que em 1995 se transformou na primeira banda carnavalesca de Pelotas, mantendo-se ativa até hoje. “Mais como participação, mas ainda saímos.”

(Foto: Jô Folha)
Reconhecido como líder comunitário, Ademir também esteve à frente de iniciativas esportivas, culturais e sociais, promovendo inclusão e oferecendo alternativas para jovens da região. “Ele era um facilitador, um líder dessa comunidade. Por isso e por muitas outras coisas as pessoas da comunidade reverenciam isso”, fala Silva.
Defendia o Carnaval como manifestação democrática e fazia questão de garantir a participação de pessoas de baixa renda, promovendo oficinas e ensaios abertos. “Ele dizia que o pobre não se diverte, como o Carnaval é algo democrático e popular o povão tem que ir pra se divertir.”
De volta à rua
O Espaço Artístico Cultural Ademir Operário estará aberto à visitação quinzenalmente, aos sábados, das 14h às 19h, com entrada gratuita, reafirmando a Cerquinha como território de memória, resistência e celebração popular. Mais informaçãoe pelo (53) 99999-1717 ou pelo Instagram @candinhadacerquinha. Esse ano o Candinhas da Cerquinha homenageará seu fundador, Ademir Operário, na passarela, dia 14 de fevereiro, às 23h15min.
