Imagine os domingos com os supermercados de portas fechadas. No vai e vem das tendências, o Espírito Santo fará uma experiência comercial pioneira no país. A partir de 1º de março, supermercados capixabas não irão mais atender no último dia da semana — oficialmente, é o primeiro dia, mas, por convenção, é tratado como o encerramento do período de sete dias. A medida será adotada até o dia 31 de outubro deste ano, como parte da convenção coletiva de trabalho 2025/2027, firmada entre o Sindicomerciários e a Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio).
Na justificativa dos representantes supermercadistas, a decisão deve-se à escassez de mão de obra, às faltas constantes registradas, ao número crescente de atestados médicos e às dificuldades para garantir equipes completas para atender o público aos domingos, o que compromete o serviço. Em outras palavras, o pessoal do plantão dominical está cada vez menos interessado em sacrificar o descanso.
Na cláusula consta que trabalhadores de empresas de gêneros alimentícios — hipermercados, autosserviços, atacadistas, atacarejos, mercearias, hortifrutis e lojas em shopping centers, além do setor de material de construção — serão beneficiados. De acordo com a Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), a folga era uma reivindicação antiga do Sindicomerciários. As regras e o impacto da medida poderão ser reavaliados em novembro de 2026.
A mudança não atinge apenas a rotina das empresas do setor. O consumidor do Espírito Santo também terá que se adaptar. Aquelas compras reservadas aos domingos — maiores ou emergenciais — deixarão de acontecer. Ou as famílias passam a se preparar de segunda a sábado e inserem na agenda doméstica as compras, ou começam a recorrer aos comércios menores, de certa forma fortalecidos pela medida, pois passam a ganhar protagonismo.
Na avaliação do sindicato, os efeitos devem reforçar o debate nacional sobre a jornada de trabalho e a escala 6×1. Em entrevista recente, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, defendeu o fim do modelo atual para aumentar a produtividade da economia. O ministro citou exemplos em que o modelo buscado teve resultados práticos. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (2024), com 19 empresas que reduziram a escala, apontou aumento de receita de 72% e cumprimento de prazos de 44%. No Japão, segundo Boulos, a Microsoft passou a usar a escala 4×3 e a produtividade individual do trabalhador cresceu 40%. Já na Islândia, onde em 2023 a jornada caiu para 35 horas semanais (4×3), a economia cresceu 5% e a produtividade do trabalho aumentou 1,5%.
O Espírito Santo será o laboratório brasileiro de uma experiência que já começa a aparecer de forma individual em outros estados. No interior de São Paulo, uma das maiores redes supermercadistas comunicou mudanças em sua forma de funcionamento. Unidades do grupo deixarão de abrir aos domingos, e o modelo 5×2 será ampliado. A loja de Santa Bárbara d’Oeste não abrirá nesses dias em 2026, enquanto as dos municípios de Tietê, Boituva e Araras irão operar em horários reduzidos — vão abrir mais tarde e encerrar mais cedo as atividades. A expansão do modelo em todas as unidades será gradual.
Um debate está a caminho, com rápida participação de setores que se antecipam ao futuro do trabalho no país. Enquanto a decisão legal não é tomada pelo Congresso Nacional, implantam-se e testam-se medidas ainda no papel. Não existe fórmula pronta, mas um consenso — ao menos, assim se desenha: o trabalhador consegue entregar mais, com mais qualidade, se tiver mais tempo para si e para a família.