Desde segunda-feira (19), Pelotas tem vivenciado encontros singulares entre tradição, contemporaneidade e ocupação dos espaços urbanos. Um bom exemplo é o espetáculo Tango Ember, que integra a programação do 14º Festival Internacional Sesc de Música. O projeto artístico oriundo da Argentina estreou na cidade na noite de quarta-feira, teve uma apresentação no calçadão da Andrade Neves, no final da tarde de ontem, e encerra sua participação hoje, às 19h, no Shopping Pelotas, reafirmando a força do tango não apenas como performance de palco, mas como manifestação cultural viva, capaz de dialogar diretamente com o público, inclusive fora dos teatros.
A apresentação da quarta-feira, no Theatro Guarany, marcou a estreia mundial da formação Tango Next, em colaboração inédita com a orquestra argentina Tango Bardo. Embora o cantor Roberto Minondi já tenha uma trajetória consolidada no Brasil, esta é sua primeira vez em Pelotas. A casa lotada e a reação entusiasmada do público confirmaram o que se viu em cena: um espetáculo vigoroso, intenso e profundamente comunicativo.
Brasa permanente
Mais do que um show, Tango Ember – “ember” no sentido de brasa que permanece acesa – propõe uma metáfora clara sobre o próprio tango. Trata-se de uma arte que atravessa gerações, que por vezes parece adormecer, mas nunca se apaga. No palco, cinco casais de bailarinos, um cantor e um quarteto típico (bandoneón, piano, contrabaixo e violino) conduzem o espectador por uma experiência sensorial marcada pela elegância, pela tensão dramática e pela musicalidade milonguera, inspirada em Juan D’Arienzo.
A união entre o Tango Next, dirigido por Fernando Gracia, campeão mundial de tango em 2007, e o Tango Bardo, fundado em 2015, nasceu de um encontro no Japão e simboliza o caráter global que o tango assumiu nas últimas décadas.
Essa capacidade de adaptação também se expressa nas apresentações em espaços não convencionais.
Valor especial
Em Pelotas, além do teatro, o tango ganhou as ruas em ações organizadas pelo Sesc. Para Roberto Minondi, essa experiência tem um valor especial. Apresentar-se na rua, segundo ele, é tão belo quanto cantar em uma grande sala de concertos. É levar a cultura diretamente às pessoas, romper a barreira simbólica do palco e permitir o encontro espontâneo, algo que ele compara à experiência de ouvir samba nas ruas do Brasil.
No calçadão da Andrade Neves, mais de uma centena de pessoas parou para apreciar a arte da dança e da música portenha. O silêncio durante as performances e os aplausos, gritos e assobios, ao final delas, mostravam que o público estava em comunhão com a arte apresentada.
Plateia alta
Encantada com o espetáculo, Marli Rodrigues, 74 anos, não tirava os olhos da atração. E ela não estava sozinha, foi com a família ao centro de Pelotas, especialmente para verem o espetáculo, seguindo a programação divulgada.
Prevenidos, os Rodrigues levaram banquinhos de madeira para poderem apreciar o evento se sobressaindo ao mar de cabeças à sua frente. A dona de casa diz que costuma acompanhar o Festival e na quarta-feira não conseguiu ingresso para entrar no Theatro. “Gosto de tango”, diz.
E se apresentar na rua não é uma prática estranha aos artistas. Na Argentina, comenta Roberto Minondi, festivais de rua fazem parte do cotidiano cultural, e o tango, nascido em bairros populares e espaços compartilhados, carrega em sua essência essa vocação pública. Ao ocupar praças, calçadas e centros comerciais, o gênero recupera sua origem e amplia seu alcance, dialogando com novos públicos e contextos.
