Em meio à vaias, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite (PSD) fez um pedido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que estava em Rio Grande para a assinatura de contratos de moradias e novos navios, para que haja esforços direcionados ao equilíbrio nas disputas por investimentos entre os Estados. A possibilidade de redução significativa de impostos às empresas, oferecida por outras regiões em meio às negociações, foi citada como um dos entraves nos negócios gaúchos.
Rio Grande esperava sediar a instalação da segunda fábrica da Great Wall Motors (GWM). No entanto, na última semana, foi assinado um termo de compromisso entre a montadora chinesa e o governo do Espírito Santo. A planta ocuparia uma área no distrito industrial rio-grandino de cerca de 230 hectares, com investimento de R$ 1,1 bilhão e que iria gerar quase 10 mil empregos, segundo as projeções.
Entre os exemplos do desequilíbrio federativo, o governador citou a redução de 75% do Imposto de Renda (IRPJ) que a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) oferece para empresas que queiram investir na região, e que o Rio Grande do Sul não teria como competir, uma vez que não pode oferecer o mesmo em suas negociações. “Não estou pedindo para tirar absolutamente nada dessas outras regiões, mas precisa corrigir essa profunda distorção que faz com que nós tenhamos mais desafios e dificuldades para atração de investimentos”, destaca Leite.
Além disso, a dívida do Rio Grande do Sul com a União foi mencionada como outro impedimento para o avanço no desenvolvimento gaúcho. “Além de não termos esses benefícios fiscais, temos ainda 10% da receita do Estado extraída na forma de pagamento da dívida para a União, que teve um avanço com o Propag, mas não foi resolvida”, diz o governador. O total da dívida atualmente, sem a correção pela inflação (IPCA) é de R$ 106,5 bilhões.
Caminhos
Apesar da região contar com portos de grande capacidade para investimentos de diversas naturezas, com condições para receber grandes navios, torna-se impraticável equacionar os incentivos que outras regiões repassam aos negociantes. Na análise do vice-presidente de infraestrutura da Federasul, Antônio Carlos Bacchieri, este problema passa pelo grande endividamento do Rio Grande do Sul que, por precisar equacionar as contas, precisaria de uma maior arrecadação, mas esta não é muito favorável a incentivos fiscais. “Nós, do meio empresarial, entendemos que o Estado deveria cuidar de um tamanho menor, deveria cuidar bastante da segurança, da saúde e educação, e não se meter em outras coisas que acabam onerando e exigindo que se tenham impostos mais altos e, por consequência, afugentam as grandes empresas que poderiam estar aqui no Rio Grande do Sul”, analisa.
Outra solução apontada por Bacchieri é o encaminhamento da Termelétrica em Rio Grande. As grandes empresas trabalham exclusivamente com gás e a falta dele coloca a Zona Sul em desvantagem. O representante da Federasul reforça que esta reivindicação não exige dinheiro do governo, é um investimento do setor privado, mas que precisaria de um maior apoio institucional do governo federal para que o projeto tivesse encaminhamentos.
A virada do otimismo
Após a negativa da GWM, Rio Grande encara o momento como de otimismo e de continuidade no trabalho por novos investimentos. O secretário de Desenvolvimento, Inovação, Turismo e Economia do Mar (Smditmar), Vítor Magalhães, reconhece que a questão do desequilíbrio federativo impacta nas negociações, mas que a cidade não deixa de ir atrás de novos potenciais empreendimentos.
Na semana passada, foi anunciada a primeira planta de hidrogênio verde e amônia do Rio Grande do Sul, com investimento de cerca de R$ 220 milhões, que ocupará uma área no distrito industrial. “Isso nos mostra que temos o potencial, a vontade, e vamos compensar a desvantagem de estrutura com esforço, vontade e sangue no olho de fazer dar certo”, garante Vítor.
Há expectativa de novos anúncios ainda no primeiro semestre de 2026. “Estamos focados em buscar mais e investimentos grandes. Mesmo com todas as dificuldades, estivemos de igual pra igual com a GWM até o final. Estamos no jogo”, projeta o secretário.
