O orelhão, ícone do design e da identidade brasileira, está sendo retirado das ruas do país após o término das concessões do serviço de telefonia fixa das empresas responsáveis pelos aparelhos. Quase indispensáveis no passado, os telefones públicos tornaram-se obsoletos com a popularização dos celulares. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), restam 16 orelhões na região Sul do Estado.
A partir de janeiro, começa a remoção em massa de carcaças e aparelhos desativados. Os orelhões serão mantidos apenas em cidades sem cobertura de telefonia móvel, e somente até 2028. De acordo com o professor do curso de Telecomunicações do IFSul, Nathan Amaral, a agência atua junto às operadoras para levar conectividade a regiões remotas. “A Anatel identifica áreas com cobertura insuficiente e exige a implantação de infraestrutura, garantindo que até 2028 toda a população tenha acesso à comunicação móvel e de dados”, explica.
O processo de extinção já vinha ocorrendo nos últimos anos. Em 2020, o Brasil ainda possuía cerca de 202 mil orelhões. Atualmente, os 16 aparelhos remanescentes na região estão distribuídos entre São José do Norte (5), Canguçu (3), Cerrito (2), Santa Vitória do Palmar (2), São Lourenço do Sul (1), Capão do Leão (1), Pinheiro Machado (1) e Candiota (1).
Um marco na telecomunicação brasileira
Criado em 1971 pela arquiteta e designer sino-brasileira Chu Ming Silveira, à época chefe do Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB), o orelhão tornou-se um marco da telecomunicação brasileira. Inspirado no formato do ovo, o projeto resultou nos modelos Chu I, para ambientes internos, e Chu II, para áreas externas. Um ano após o lançamento, a CTB registrou aumento de 12% no volume diário de chamadas.
Segundo Amaral, os orelhões tiveram papel fundamental na democratização do acesso à comunicação. “Eles ajudaram a integrar regiões, facilitaram atividades econômicas, situações de emergência e a circulação de informações. Tiveram um papel social importante na inclusão e na democratização da comunicação antes da popularização dos celulares”, explica.
A dona de casa Luciana Farias lembra que o uso era simples e cotidiano. “Eu usava muito! Naquela época era só o orelhão. Não tinha celular”, recorda. Segundo ela, bastava ter uma ficha – posteriormente substituída por cartões telefônicos – para realizar uma chamada.
Fim de uma era
O professor afirma que a desativação dos orelhões marca o fim de uma era da telecomunicação no Brasil. “A obsolescência dos telefones públicos representa uma transição tecnológica, do telefone fixo para a comunicação móvel e digital, evidenciando a evolução por meio da mobilidade”, destaca.
Segundo Amaral, a substituição dos orelhões por celulares foi acelerada pela redução dos preços dos aparelhos, oferta de planos pré-pagos e expansão das redes móveis. “A praticidade, a mobilidade, a chegada da internet e a falta de manutenção dos orelhões também contribuíram para esse processo”, acrescenta.
Apesar disso, ele lembra que moradores de áreas rurais ou isoladas, pessoas idosas, sem celular e em situações de emergência – como desastres naturais ou falhas na telefonia móvel – ainda podem demandar esse tipo de serviço.
Mesmo tendo utilizado mais os telefones fixos, o comerciário Paulo Silva, de 70 anos, lamenta que diversos aparelhos tenham sido depredados, com fones quebrados e apenas os cabos expostos. “Eles foram se depredando com o tempo. Era para ter até hoje. É uma coisa que ainda faz falta”, avalia.
Da mesma forma que ocorreu com os orelhões, outras tecnologias atuais tendem a se tornar obsoletas nos próximos anos. Entre os exemplos do professor estão os telefones fixos residenciais, cada vez mais substituídos pelos celulares; a televisão por assinatura tradicional, por conta dos serviços de streaming e plataformas de vídeo; e cartões de crédito físicos e dinheiro em espécie, devido ao avanço dos pagamentos digitais, carteiras eletrônicas e aplicativos bancários.