Do churrasco ao estaleiro: os bastidores da visita de Lula

Opinião

Pedro Petrucci

Pedro Petrucci

Jornalista

Do churrasco ao estaleiro: os bastidores da visita de Lula

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Lula almoçou um churrasco feito pelos novos moradores do Residencial Junção antes de subir ao palco para anunciar investimentos bilionários em Rio Grande.

A cobertura começou ainda em Pelotas, com a chegada do presidente em avião da FAB, acompanhado de Maria do Rosário e Paulo Pimenta. No aeroporto, o prefeito de Pelotas, Fernando Marroni, recepcionou a comitiva, que seguiu de helicóptero até Rio Grande em um deslocamento rápido.

Enquanto militantes se concentravam na tenda montada do lado de fora dos condomínios, a comitiva entrou direto em um dos apartamentos para a entrega simbólica do Minha Casa Minha Vida. Do lado de dentro, moradores preparavam o churrasco. Ali, longe do palco, Lula pegou uma criança no colo, conversou com as família e petiscou com os novos moradores, que lembraram ter assado um peixe o presidente em 2003. Aquela foi a única refeição do dia.

Depois disso, Lula foi ao palco para o primeiro discurso, com cerca de 20 minutos. Na sequência, houve uma mudança de rota. O almoço formal previsto com a Ecovix foi deixado de lado para que o presidente participasse de uma reunião no Porto. Nesse encontro, foram confirmados o anúncio de R$ 24 bilhões em investimentos, a cessão de área da União para o terminal da CMPC e os encaminhamentos ligados aos navios.

De lá, Lula seguiu para a Ecovix. Visitou as instalações, conheceu o projeto de um dos novos navios e foi para mais uma cerimônia. Sob um toldo montado no estaleiro, com trabalhadores da empresa de um lado e militantes do outro, os envolvidos sentaram à mesa para assinar os contratos dos navios gaseiros.
No discurso final, Lula avisou que falaria pouco porque estava sem almoço, aviso que não se confirmou. Foram quase 50 minutos de fala. Brincou com a nominata, retomou 2002 e o compromisso de reduzir a pobreza, lembrou a criação do Ministério da Pesca e destacou a obrigação de ministros e dirigentes sindicais tratarem da violência contra a mulher, trecho que arrancou aplausos inclusive do governador Eduardo Leite.

Falou da retomada do polo naval, comentou a expectativa por petróleo na Bacia de Pelotas, fez piadas sobre não usar celular e encerrou prometendo voltar mais vezes a Rio Grande e Pelotas em 2026.

Vaia e enfrentamento de Leite

O discurso de Eduardo Leite foi um caso à parte na cerimônia em Rio Grande. Único em posição de oposição, o governador participou da visita à Ecovix sem alarde, subiu ao palco entre os ministros sob as primeiras vaias da militância e, em seguida, sentou ao lado de Lula, em posição central.

Leite foi chamado ao púlpito após um discurso político de Sérgio Bacci, presidente da Transpetro. Com a militância já inflamada, o coro de vaias se intensificou.
O governador escolheu o enfrentamento.

— Este é o amor que venceu o medo? — questionou, em referência a uma expressão petista usada no enfrentamento ao bolsonarismo.

Na sequência, buscou recolocar o discurso no campo institucional.

— Vamos respeitar. Estou cumprindo meu dever institucional, respeitando o presidente da República. Fomos eleitos da mesma forma. Estamos aqui pelo desenvolvimento de Rio Grande e do Rio Grande do Sul.

Leite enfrentou as vaias de forma direta. Questionou se aquele comportamento correspondia a uma proposta de união e constrangeu o ambiente. Lula, em gesto de solidariedade, sinalizou à militância para que cessasse o protesto.

No encerramento, o governador fez um pedido, mas com nova estocada política. Disse que o Estado fez todos os esforços possíveis para atrair uma montadora, que colocou todas as cartas na mesa, mas que há um desequilíbrio administrativo que precisa ser corrigido. Afirmou não atribuir a responsabilidade ao presidente, classificou o problema como uma distorção histórica e defendeu a correção de impostos que, segundo ele, afastaram investimentos.

Foi uma referência direta à ida da GWM para o Espírito Santo e também uma lembrança de 1999, quando o governo de Olívio Dutra, também no palco ao lado de Lula, enfrentou o impasse com a Ford.

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