“De certa forma, seguimos criando moinhos de vento. A diferença é que agora esses moinhos são digitais, midiáticos”

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“De certa forma, seguimos criando moinhos de vento. A diferença é que agora esses moinhos são digitais, midiáticos”

Aninha Giehl – Professora de Literatura, português e redação

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“De certa forma, seguimos criando moinhos de vento. A diferença é que agora esses moinhos são digitais, midiáticos”
(Foto: Reprodução)

No dia 16 de janeiro, Dom Quixote completou 421 anos desde sua primeira publicação. Escrita por Miguel de Cervantes no início do século 17, a obra atravessou séculos sem perder relevância, mantendo-se atual ao abordar temas como a luta entre ideal e realidade, a loucura, a crítica social e a forma como os indivíduos constroem suas próprias verdades — questões que seguem presentes nos debates da sociedade contemporânea.

O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha completa 421 anos. Por que essa obra ainda é considerada tão atual depois de mais de quatro séculos?
Eu costumo dizer que Dom Quixote é uma obra extremamente atual, como todo grande clássico da literatura. Os tempos mudam, mas os acontecimentos políticos, econômicos e sociais continuam se repetindo. O que muda são os personagens. Cervantes traz um conflito que segue muito presente hoje: o embate entre o ideal e a realidade. Dom Quixote enlouquece lendo livros de cavalaria de um século anterior, internaliza essas histórias e passa a tentar salvar o mundo, buscar justiça, ajudar as pessoas. Muitos desses conflitos acontecem na imaginação dele, mas isso também diz muito sobre nós, porque a literatura nos faz mergulhar em outras realidades e olhar o mundo de forma mais sensível.

Qual é o contexto histórico que ajuda a entender melhor Dom Quixote e suas atitudes?
A obra surge em um momento de transição muito importante. A sociedade estava saindo de um pensamento medieval, fortemente religioso e baseado em um heroísmo imaginário, para o Renascimento, quando a razão começa a ganhar espaço. Dom Quixote se vê como cavaleiro em uma época em que não se acreditava mais em cavaleiros. Ele não se sente pertencente ao seu tempo. Então, mais do que vestir uma armadura, ele se enxerga como cavaleiro. Isso é muito simbólico, porque não é só aparência: é identidade, é forma de existir no mundo.

A relação entre Dom Quixote e Sancho Pança é uma das marcas da obra. O que ela representa?
Sancho Pança representa a realidade, o pé no chão, enquanto Dom Quixote simboliza o imaginário, o ideal. Essa relação cria um equilíbrio muito interessante. A obra mostra que talvez a vida precise desse diálogo constante entre sonhar e lidar com o real. Nem só idealismo, nem só pragmatismo. Esse conflito entre os dois continua muito atual e ajuda a explicar por que a obra ainda dialoga tanto com o nosso tempo.

A loucura é um tema central em Dom Quixote. Como a obra nos provoca a refletir sobre isso?
A grande pergunta que a obra faz é: o que é loucura, afinal? Até que ponto Dom Quixote é louco, ou até que ponto a sociedade é louca por não enxergar esse lado mais sensível, mais idealista? Ele é ridicularizado, apontado, vira motivo de deboche, mas também tem coragem de enfrentar o mundo. Isso gera uma discussão que atravessa séculos. A própria ciência e a literatura seguem tentando responder o que é a loucura. Muitas obras posteriores abordam isso, mas Cervantes já estava fazendo essa pergunta lá atrás.

É possível relacionar Dom Quixote com o mundo atual, especialmente com temas como alienação e fake news?
Com certeza. Hoje a gente vive cercado de fake news, alienação, narrativas distorcidas. As pessoas se prendem a versões da realidade que muitas vezes não correspondem aos fatos. De certa forma, seguimos criando moinhos de vento. A diferença é que agora esses moinhos são digitais, midiáticos. Por isso, falar de Dom Quixote hoje é extremamente necessário, porque a obra continua mostrando como a mente humana constrói realidades para lidar com um mundo muitas vezes caótico

Por que, mesmo sendo uma obra extensa e antiga, Dom Quixote ainda deve ser lido hoje?
Porque a literatura nos oferece todos os lados possíveis: o político, o social e o subjetivo. Dom Quixote nos ajuda a entender o mundo e, ao mesmo tempo, a nós mesmos. Ele nos faz perguntar qual é a nossa armadura, qual é o nosso sonho, o que a gente veste para sair por aí e tentar ser feliz. Por isso, 421 anos depois, essa obra continua essencial.

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