Em um levantamento realizado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em 2024, por pesquisadores de diferentes áreas, foi constatado que historicamente, São Lourenço do Sul destaca-se por ser um município de diversas ocorrências de eventos climáticos extremos e com decretos de emergência sendo emitidos, praticamente todos os anos, desde 1989 por desastres distintos.
O prefeito Zelmute Marten (PT), em recente entrevista ao Grupo A Hora, definiu a população lourenciana como “refugiados climáticos”, ao citar o levantamento feito pela UFPel e os constantes esforços do poder público para mitigar os efeitos do clima adverso, além da parceria com as universidades e a Defesa Civil, em todas suas instâncias, para a buscar o menor impacto aos moradores. “Nossos moradores têm na memória os piores cenários. Todos os anos São Lourenço está em situação de emergência ou calamidade, alguns anos os dois ao mesmo tempo em razão de chuvas, ventos, seca, granizo, de um conjunto de eventos extremos que serão cada vez mais recorrentes”, pontua.
Sobre os decretos de emergência, a engenheira cartógrafa, membro do Núcleo Integrado de Previsões (NIP) da UFPel, e uma das autoras deste levantamento, Diuliana Leandro, afirma que a ocorrência real dos eventos extremos, que dão origens às declarações de emergência, pode ser ainda maior do que o documentado. “É importante considerar que nem todos esses eventos aparecem nos registros oficiais, como no S2ID, pois só são contabilizados aqueles em que há algum tipo de perda material, seja pública ou privada, geralmente associada a decretos de situação de emergência ou calamidade”, destaca.
Os pesquisadores da UFPel pontuam que, desde o início do século XX, São Lourenço do Sul já enfrentou inúmeras enchentes, deslizamentos de terra, tempestades e outros eventos climáticos extremos, que resultaram em perdas de vidas humanas e prejuízos materiais e econômicos.
Há uma tendência nas pesquisas que apontam para o fato de que, nas próximas três décadas, haverá uma maior frequência na passagem de sistemas meteorológicos, sobre a região Sul do Brasil, em virtude de mudanças no padrão climatológico regional. Historicamente, esse aumento na frequência de desastres já vinha sendo observado sobre o leste gaúcho, em especial entre as décadas de 1990 e 2000, se comparado com vinte anos antes.
Área de Desastre
O ano de 2011 ainda está nas lembranças dos moradores de São Lourenço do Sul e de todos aqueles que acompanharam uma das maiores tragédias climáticas da Zona Sul, equiparadas às enchentes históricas de 1941 e 2024. Naquele ano, a cidade foi declarada como “área de desastre”, por conta de uma forte enxurrada.
A enchente causou grandes prejuízos, perdas materiais em diversas regiões da cidade e ao menos oito mortos. Segundo os registros, o evento climático extremo foi causado por um grande volume de chuvas que atingiu a região, principalmente na bacia hidrográfica do rio Camaquã. Essas chuvas foram intensas e persistentes, o que provocou o aumento do nível do rio Camaquã e de seus afluentes, como o Arroio Cadena e o Arroio da Velha. A água desses rios invadiu a cidade e causou danos em diversas áreas, como em estradas, pontes, casas e comércios. Os prejuízos causados pela enchente foram significativos, e os moradores da cidade tiveram que lidar com problemas como a falta de acesso a água e energia elétrica, além de doenças causadas pela água contaminada.
Alagamento da última semana
Na semana passada, São Lourenço do Sul foi atingido por mais um evento climático que, desta vez, pegou toda a população e as autoridades de surpresa, mesmo com o monitoramento que já é realizado em toda a região. Segundo a Defesa Civil, uma nuvem concentrou-se na costa do município gerando fortes chuvas, que ocorreram de forma rápida e localizada, com acumulados de 72 milímetros em cerca de duas horas. Estava previsto um acumulado de chuva de cerca de 15 milímetros, o que não demandaria uma ação preventiva da magnitude do que aconteceu de fato.
Atualmente, São Lourenço do Sul conta com o trabalho do Centro Interinstitucional de Eventos Extremos (Ciex) da Furg, que emite boletins meteorológicos de quatro em quatro dias e, quando ocorrem eventos climáticos extremos, esses boletins meteorológicos são feitos de hora em hora. Segundo o prefeito, a zona urbana ficou inundada porque o sistema de drenagem não suportou. Empresas e casas foram alagadas e, as que estão localizadas às margens da praia da Barrinha, ficaram totalmente danificadas.
Decreto de emergência
Enquanto o município enfrentava mais um grande desafio climático, era publicado no Diário Oficial da União a portaria que reconhecia a situação de emergência em São Lourenço do Sul, após os estragos causados pela passagem do ciclone extratropical nos dias 9 e 10 de dezembro do ano passado.
Ao avaliar os estragos, o prefeito relembra apenas o ano de 2025 e as situações adversas mais recentes. “No ano passado, São Lourenço do Sul iniciou com granizo, depois tivemos uma seca e tivemos três chuvas intensas que colocaram o nosso município em situação de emergência diversas vezes. O último temporal colocou o município em situação de emergência tipo 2 e iniciamos 2026 com esse grande volume de chuva concentrada num curto período de tempo”, sintetiza Zelmute.
A pesquisa sobre os decretos de emergência na cidade deu origem a um e-book, chamado de Desastres Naturais em São Lourenço do Sul, que pode ser consultado através do site da UFPel.
Necessidade de prevenção
A pesquisadora da UFPel reforça que é necessário investir em medidas preventivas e em políticas de conservação ambiental. Além disso, destaca o avanço na conscientização das prefeituras para a temática, mas reitera o desafio que é e a importância do fortalecimento de uma cultura de ação integrada com todos os atores sociais na prevenção de desastres. “Não é uma responsabilidade apenas do poder público. A cidadania também passa por entender que cada ação individual e coletiva contribui para reduzir ou agravar os impactos dos desastres”, diz Diuliana Leandro.
O conhecimento também deve ser estendido às pessoas que vivem em áreas mais vulneráveis que, na orientação da pesquisadora, precisam entender que esses eventos fazem parte da realidade local e saber como agir antes, durante e depois de cada situação. “A educação para o risco é uma das ferramentas mais poderosas da prevenção”, diz.
Diuliana ainda reitera que não há como evitar um evento extremo, pois eles fazem parte da dinâmica natural. “O que se pode fazer é se preparar melhor para que as consequências não sejam tão destrutivas. Com planejamento, monitoramento, mapeamento e ações preventivas, é possível minimizar os impactos, reduzir danos e tornar a cidade mais resiliente”, reforça.
