Entre um mundo cercado por dietas restritivas, culpa e a pressão constante por um corpo magro, a relação com a comida costuma ser marcada por extremos. Estudante de Nutrição no 8º semestre da Universidade Federal de Pelotas, Júlia Lopes compartilha como o estudo do comportamento alimentar transformou sua própria vivência com a alimentação e explica por que a saúde vai muito além de força de vontade, disciplina e números na balança.
Qual a maior diferença que tu percebes entre a Júlia de antes de estudar comportamento alimentar e a Júlia de hoje?
Desde antes de começar a faculdade, eu já olhava para a alimentação e para as questões de corpo e autoestima de forma mais empática e compreensiva do que o que era propagado na internet. No início do curso, porém, senti que meu interesse por comportamento alimentar foi sendo deixado de lado após ouvir comentários pejorativos de colegas próximos, como “tem que fazer o que tem que ser feito” ou “é só ser adultinho e seguir a dieta”. Acabei sendo diminuída e levada pela maré, principalmente por acreditar que não tinha tanto conhecimento quanto quem fazia esse tipo de fala.
Quando eu me reencontrei com esse olhar, compreendi que comportamento alimentar e perda de peso vão muito além de “força de vontade” ou “disciplina”. É uma ciência complexa, em que apenas uma dieta não é resolutiva. É necessário entender, de forma individual, qual papel a comida exerce na vida de cada pessoa, identificar gatilhos, nomear emoções e trabalhar contra uma mentalidade extremista e de autossabotagem.
A construção de uma rotina saudável e sólida me permite viver os momentos fora da rotina sem culpa. Entender que esse processo é para a vida inteira é essencial para sustentar bons hábitos no dia a dia.
Na prática, o que muda entre prescrever uma dieta e trabalhar comportamento alimentar?
Prescrever uma dieta calculada para alguém que apresenta um comportamento alimentar disfuncional é como tapar o sol com a peneira. Pode até gerar resultados na balança no primeiro momento, mas não resolve a causa do ganho de peso nem os gatilhos associados ao exagero alimentar crônico.
Trabalhar comportamento alimentar em conjunto com a prescrição dietética é ensinar educação alimentar e nutricional de forma responsável, sem terrorismo alimentar e sem foco excessivo em contagem de calorias. Afinal, se fosse apenas “fazer déficit calórico”, não teríamos grande parte da população brasileira com sobrepeso. O excesso alimentar é multifatorial, e precisa ser compreendido como tal.
Quais são os erros mais comuns de quem tenta “comer melhor” sozinho?
Um erro muito comum é tentar ir do oito ao oitenta, excluindo todos os alimentos de que gosta com o pensamento de “nunca mais posso comer isso”. O extremismo, de modo geral, gera frustração ao longo do processo e aumenta o risco de reganho de peso depois.
Hoje, afirmo com tranquilidade que é muito mais sobre adicionar — frutas, vegetais, fontes de proteínas e fibras — do que excluir radicalmente grupos alimentares ou tipos de preparações. É sobre encontrar equilíbrio entre o que o corpo precisa nutricionalmente e o que faz bem emocionalmente.
Como jovem e estudante de Nutrição, o que tu observas na cultura do culto à magreza nas redes sociais?
Observo uma associação muito forte entre magreza e valores morais, como disciplina, sucesso e autocontrole. Corpos magros são frequentemente usados como prova de que alguém é saudável, focado ou “faz tudo certo”, enquanto qualquer desvio disso é interpretado como falta de esforço.
As redes sociais reforçam padrões estéticos muito específicos, vendidos como estilo de vida saudável, mas sem mostrar o custo psicológico envolvido. Pouco se fala sobre ansiedade alimentar, culpa, obsessão e a dificuldade de sustentar esses comportamentos no longo prazo. Como estudante de Nutrição, me preocupa ver a saúde sendo reduzida à aparência, pois isso normaliza comportamentos alimentares desregulados e afasta as pessoas de uma relação mais equilibrada com a comida.
Como o comportamento alimentar pode ajudar quem já tentou várias dietas e não teve resultados duradouros?
O trabalho com comportamento alimentar ajuda a identificar os padrões que fazem a pessoa repetir o ciclo de dieta, frustração, culpa e compensação. Ele respeita o tempo individual de aprendizado alimentar, em vez de focar apenas em resultados na balança.
O foco deixa de ser a restrição calórica e passa a ser constância e construção de hábitos que realmente caibam na vida da pessoa, o que gera resultados mais sustentáveis ao longo do tempo.
Que conselho tu darias para quem vive em conflito com a alimentação?
O principal conselho é entender que o conflito com a comida raramente é falta de força de vontade. Na maioria das vezes, ele nasce de anos de regras rígidas, restrições e expectativas irreais sobre o próprio corpo e a alimentação. Seguir mais uma dieta restritiva tende apenas a reforçar esse ciclo de controle e culpa.
Buscar ajuda e aprender a se escutar permite reconhecer sinais de fome e saciedade, identificar gatilhos emocionais e fazer escolhas mais conscientes, sem viver em alerta o tempo todo. Quando a pessoa para de tentar se controlar o tempo inteiro e começa a se compreender, a relação com a comida tende a ficar mais estável, mais leve e, principalmente, mais sustentável.