Dados extraídos do cronotacógrafo pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) indicam que tanto a carreta carregada com areia quanto o ônibus da empresa Santa Silvana trafegavam entre 95 e 100 km/h momentos antes do acidente da última sexta-feira (2), no km 491 da BR-116, em Pelotas. A velocidade é mais que o dobro do limite permitido no trecho, sinalizado para 40 km/h em razão de obras.
A colisão frontal deixou 11 pessoas mortas e ao menos 12 feridas, em um dos acidentes mais letais já atendidos pela concessionária Ecovias Sul. Em entrevista à Rádio Pelotense nesta segunda-feira (5), a gerente de operações da Ecovias Sul, Liliane Firmiano, revela que o episódio foi o mais grave já registrado pela empresa: “É o pior registro que nós temos em número de vítimas”.
Segundo a concessionária, o acidente iniciou quando um caminhão ficou imobilizado sobre a pista após ser bloqueado eletronicamente pelo sistema de rastreamento via GPS. Diferente de uma pane mecânica, o bloqueio travou inclusive as rodas do veículo, impedindo sua remoção imediata.
“O motorista informou que o caminhão havia sido bloqueado pelo sistema de rastreamento, que dificulta muito a remoção. É necessário retirar [o eixo] cardan, desmobilizar o sistema de frenagem. Entramos em contato com a empresa e fomos informados de que o desbloqueio pode levar cerca de 40 minutos”, explica Liliane. A equipe da Ecovias Sul iniciou imediatamente a sinalização do local, mas a fila de veículos já se formava.
A gerente afirma que, embora sistemas desse tipo sejam comuns, o bloqueio de um caminhão em movimento, sobre a pista, é algo que não acontece com tanta frequência. “Esse cenário precisa ser revisto. […] O sistema de telemetria pode monitorar, alertar, mas o travamento de um veículo pesado na rodovia precisa ser revisto”, alerta.
Distração e tentativa de desvio
Conforme relato do próprio condutor da carreta, feito ainda consciente durante o resgate, ele manuseava o rádio do veículo e não percebeu o congestionamento à frente. Ao tentar desviar, invadiu a pista contrária e colidiu frontalmente com o ônibus que seguia no sentido Pelotas – São Lourenço do Sul.
“Era pista simples, a obra estava na pista oposta, mas por conta do canteiro de obras havia sinalização reforçada, placas de redução e redutores. A velocidade permitida no trecho era de 40 km/h. Hoje a PRF aponta que ele estava a quase 100 km/h”, afirma Liliane.
Areia invadiu o ônibus
O impacto fez com que a carreta tombasse parcialmente, lançando toda a carga de areia para dentro do ônibus, que foi invadido pela frente. O material avançou até aproximadamente o banco 13, soterrando passageiros. “Algumas vítimas morreram soterradas. Tivemos pessoas com vida presas sob a areia, o que tornou o resgate extremamente delicado”, relata.
Resgate durou mais de 10 horas
O atendimento mobilizou uma grande força-tarefa e se estendeu por quase 11 horas, das 11h25min até 22h15min. Ao todo, 17 veículos da Ecovias Sul foram utilizados, incluindo ambulâncias, guinchos pesados, retroescavadeira e viaturas operacionais. Também atuaram Samu, Corpo de Bombeiros, PRF e Brigada Militar.
Um dos principais desafios foi o soterramento de vítimas, que exigiu retirada totalmente manual. A última pessoa a ser socorrida com vida levou cerca de três horas e meia para ser resgatada, pois além da areia, estava com as pernas presas às ferragens. “Qualquer movimento errado poderia agravar o estado das vítimas”, explica Liliane.
Segurança da operação
Com o ônibus posicionado próximo a um talude, dois guinchos pesados permaneceram ancorados ao veículo durante todo o resgate, evitando deslocamento da estrutura. A rodovia ficou totalmente bloqueada durante grande parte do dia, com congestionamentos de até oito quilômetros.
Todos os feridos foram encaminhados a Pelotas, sem registro de atraso no transporte das vítimas. “Foi uma operação extremamente exaustiva. As equipes ficaram horas sob sol intenso, muitas vezes sem conseguir parar para se alimentar, porque a prioridade absoluta era salvar vidas”, destaca a gerente.