Não é sede por punitivismo, mas o vazamento da conclusão do inquérito interno da Corregedoria da Brigada Militar no caso Marcos Nörnberg deixa uma frustração homérica para quem queria acreditar na decência do processo, de que haveria pelo menos justiça depois da tragédia que chocou a comunidade de Pelotas. Pelo contrário: a avaliação de que não houve crime, apenas erros de planejamento e inteligência com algumas transgressões disciplinares, soa como uma amenização e dá razão aos que, desde o início, duvidavam que investigação interna daria em algo.
Por isso, o couro pela federalização do caso vem ganhando força. Todo o processo, e seus atrasos, têm gerado indignação. Já são quase três meses de muito silêncio por parte da polícia. Por outro lado, a família Nörnberg, liderada pela viúva, Raquel, faz barulho para que o caso não seja soterrado por burocracias. Aliás, se não fosse a voz incessante dela, estimulando inclusive a imprensa a não deixar para lá, a coisa talvez já teria sido, no mínimo, escanteada.
Há áreas em que simplesmente não pode “haver erros de planejamento e inteligência”. A polícia é uma delas. Quando há falha estrutural, alguém morre. Podia, inclusive, ter sido um policial, já que eles foram recebidos a tiros por uma pessoa assustada. A reação de Marcos, aliás, é justificável. Tentava proteger seu lar, apenas. Quem responderia com tranquilidade ao ver sua casa cercada por homens armados e aos gritos, sem sequer giroflex aceso para indicar que havia viaturas? Os vídeos mostram que eles gritavam, sim, que era a polícia. Mas falta bom senso em imaginar que apenas isso resolveria. Aliás, a própria família Nörnberg já havia sido vítima de criminosos num passado recente, que adotaram essa estratégia.
Tudo na abordagem está errado, e aí está o crime: o horário injustificável para a ação, a clara falta de estratégia, o impulso de sequer fazer diligências e investigar uma pista dada por criminosos… Séries de erros na segurança pública são, sim, crimes. Sobretudo quando custam uma vida. Se ninguém responder por isso, teremos ao menos duas certezas: realmente as instituições protegem a si mesmo nessas situações. E a confiança pública na justiça cairá ainda mais depois disso.
