“É uma tortura em dobro”, diz Raquel Nörnberg sobre relatório que não vê crime em morte de agricultor

caso Marcos Nörnberg

“É uma tortura em dobro”, diz Raquel Nörnberg sobre relatório que não vê crime em morte de agricultor

Viúva critica investigação da Brigada Militar, afirma que pretende pedir a federalização do caso e cobra nova análise das autoridades

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Atualizado sábado,
04 de Abril de 2026 às 15:13

“É uma tortura em dobro”, diz Raquel Nörnberg sobre relatório que não vê crime em morte de agricultor
(Foto: Jô Folha)

A viúva do agricultor Marcos Nörnberg – morto durante operação da Brigada Militar na zona rural de Pelotas –, Raquel Nörnberg afirma que pretende pedir a federalização do caso após a recente conclusão do Inquérito Policial Militar (IPM) que apontou não haver crime na ação dos policiais realizada em janeiro deste ano. 

A investigação interna da corporação, divulgada nesta semana, reconheceu falhas de planejamento e inteligência, mas concluiu que os disparos ocorreram em reação ao agricultor. Em entrevista ao jornal A Hora do Sul, Raquel diz ter recebido o resultado com indignação e criticou as conclusões do relatório.

“O meu sentimento foi de indignação. Fiquei chocada com o relatório superficial que foi feito, apontando inúmeras falhas e mentiras e conclusões absurdas”, afirma.

Segundo ela, uma das principais revoltas é o fato de o documento descartar a ocorrência de tortura psicológica durante a abordagem policial. “Eu sofri o crime de tortura. Dizerem que não houve tortura é uma tortura em dobro comigo”, diz.

(Foto: Jô Folha)

O caso ocorreu na madrugada de 15 de janeiro, quando policiais militares entraram na propriedade da família após receberem a informação de que o local seria base de uma quadrilha de roubos de veículos. Segundo o IPM, os agentes reagiram após o agricultor disparar contra a equipe, hipótese contestada pela família.

Raquel afirma que estava ao lado do marido no momento em que os policiais invadiram a residência. “Eu estava em pé ao lado dele quando invadiram a nossa casa, derrubaram as portas e atiraram no meu marido. A gente não sabia que eram policiais. Pareciam bandidos invadindo a casa”, relata.

Ela também diz ter sido ameaçada logo após os disparos. “Policiais me ameaçaram, disseram que já tinham matado o meu marido e que iam me matar também. Isso não é tortura?”, questiona.

Pedido de federalização

Diante das conclusões da investigação da BM, a viúva afirma que pretende levar o caso à esfera federal, por acreditar que as apurações locais estão comprometidas. “Tudo está comprometido nessa investigação. A federalização é o melhor caminho para que a justiça seja feita”, declara.

Na avaliação dela, as conclusões do relatório refletem um esforço de proteção institucional aos envolvidos. “Na minha opinião é o corporativismo falando mais alto. Acho que houve uma tentativa de proteger os policiais”.

Reconstituição do caso

Enquanto a investigação da BM foi encerrada, a Polícia Civil segue apurando o caso e pretende realizar uma reprodução simulada da ocorrência nos próximos dias. A simulação deve contar com a participação de todos os envolvidos.

Raquel afirma que espera que o procedimento reproduza fielmente as condições da madrugada em que ocorreu a ação. “Eu espero que seja feita nas mesmas condições daquela noite, no mesmo horário, na mesma lua”, afirma. Ela também diz que a família continuará colaborando com as investigações.

Mudança na investigação

Outro ponto que gerou preocupação na família foi a saída da delegada Walquíria Meder da condução do caso. A titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) pediu afastamento da investigação, que agora passa a contar com a atuação do delegado Gabriel Borges, sob coordenação do diretor do Departamento de Homicídios do Interior, delegado Thiago Carrijo.

Para Raquel, a mudança causa apreensão: “A saída da delegada Walquíria nos entristeceu muito. Eu tinha muita confiança no trabalho que ela iria fazer”. Segundo Carrijo, o inquérito conduzido pela Polícia Civil deve ser concluído entre 15 e 30 dias.

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