A viúva do agricultor Marcos Nörnberg – morto durante operação da Brigada Militar na zona rural de Pelotas –, Raquel Nörnberg afirma que pretende pedir a federalização do caso após a recente conclusão do Inquérito Policial Militar (IPM) que apontou não haver crime na ação dos policiais realizada em janeiro deste ano.
A investigação interna da corporação, divulgada nesta semana, reconheceu falhas de planejamento e inteligência, mas concluiu que os disparos ocorreram em reação ao agricultor. Em entrevista ao jornal A Hora do Sul, Raquel diz ter recebido o resultado com indignação e criticou as conclusões do relatório.
“O meu sentimento foi de indignação. Fiquei chocada com o relatório superficial que foi feito, apontando inúmeras falhas e mentiras e conclusões absurdas”, afirma.
Segundo ela, uma das principais revoltas é o fato de o documento descartar a ocorrência de tortura psicológica durante a abordagem policial. “Eu sofri o crime de tortura. Dizerem que não houve tortura é uma tortura em dobro comigo”, diz.

(Foto: Jô Folha)
O caso ocorreu na madrugada de 15 de janeiro, quando policiais militares entraram na propriedade da família após receberem a informação de que o local seria base de uma quadrilha de roubos de veículos. Segundo o IPM, os agentes reagiram após o agricultor disparar contra a equipe, hipótese contestada pela família.
Raquel afirma que estava ao lado do marido no momento em que os policiais invadiram a residência. “Eu estava em pé ao lado dele quando invadiram a nossa casa, derrubaram as portas e atiraram no meu marido. A gente não sabia que eram policiais. Pareciam bandidos invadindo a casa”, relata.
Ela também diz ter sido ameaçada logo após os disparos. “Policiais me ameaçaram, disseram que já tinham matado o meu marido e que iam me matar também. Isso não é tortura?”, questiona.
Pedido de federalização
Diante das conclusões da investigação da BM, a viúva afirma que pretende levar o caso à esfera federal, por acreditar que as apurações locais estão comprometidas. “Tudo está comprometido nessa investigação. A federalização é o melhor caminho para que a justiça seja feita”, declara.
Na avaliação dela, as conclusões do relatório refletem um esforço de proteção institucional aos envolvidos. “Na minha opinião é o corporativismo falando mais alto. Acho que houve uma tentativa de proteger os policiais”.
Reconstituição do caso
Enquanto a investigação da BM foi encerrada, a Polícia Civil segue apurando o caso e pretende realizar uma reprodução simulada da ocorrência nos próximos dias. A simulação deve contar com a participação de todos os envolvidos.
Raquel afirma que espera que o procedimento reproduza fielmente as condições da madrugada em que ocorreu a ação. “Eu espero que seja feita nas mesmas condições daquela noite, no mesmo horário, na mesma lua”, afirma. Ela também diz que a família continuará colaborando com as investigações.
Mudança na investigação
Outro ponto que gerou preocupação na família foi a saída da delegada Walquíria Meder da condução do caso. A titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) pediu afastamento da investigação, que agora passa a contar com a atuação do delegado Gabriel Borges, sob coordenação do diretor do Departamento de Homicídios do Interior, delegado Thiago Carrijo.
Para Raquel, a mudança causa apreensão: “A saída da delegada Walquíria nos entristeceu muito. Eu tinha muita confiança no trabalho que ela iria fazer”. Segundo Carrijo, o inquérito conduzido pela Polícia Civil deve ser concluído entre 15 e 30 dias.
