Confissões de um cadáver adiado (2024), décimo livro do escritor pelotense Luiz Carlos Freitas, vai receber tradução para o italiano e será lançado na Itália no final do ano, pela editora Pindariche, ligada à Universidade de Salerno. A obra chegou à editora européia por intermédio da agente literária Marilena Brassotti.
O livro é um romance em que o autor mergulha em temas comuns à humanidade, como vida e morte, família e memória, amor e ódio, egoísmo e generosidade, ao relatar os conflitos do personagem (alter ego de Freitas) Lucas Portugal, diagnosticado com câncer no estômago, no baço e no pâncreas. Confissões não é apenas sobre a superação da própria doença, é uma autobiografia romanceada em que Freitas, autor de 14 obras, resgata vivências desde a infância. “É um grande passo da minha carreira, porque é muito difícil conseguir abrir mercado na Europa, sobretudo na Itália. Estou muito feliz com essa história toda”, fala o escritor.
Tu te preocupas com a tradução e as diferenças culturais? Especialmente a forma de tratar temas tão sensíveis, que são memória, doença e morte?
Não, eu fico tranquilo. Primeiro porque isso é feito por profissionais com domínio da língua portuguesa. E segundo porque toda e qualquer mudança é acompanhada pelo autor. A tradução só é finalizada, vamos dizer assim, com a concordância do autor. Então, quer dizer que eu vou acompanhar. Eles fazem a tradução e vão me enviando, embora eu não entenda italiano. Eu faço a tradução também aqui, pro português, e vou acompanhando, primeiro pra não perder o estilo e a essência, essa é uma obra intimista.
Mas é um desafio pessoal levar uma obra tão importante para ti, com essa forte carga autobiográfica, para um público estrangeiro?
É um desafio, uma conquista e uma alegria. Primeiro porque a minha história vai chegar a lugares que eu não imaginava, aliás, até sonhava, vamos dizer assim, que pudesse chegar. Esse, sem falsa modéstia, é o primeiro passo para que o Confissões chegue a outros lugares da Europa, porque há a tendência que saia na Itália e depois possa seguir adiante e participar de prêmios literários lá. Eu acho até que, fazendo uma comparação, é um prêmio à minha dedicação à literatura. Trabalho 24 horas, vamos dizer assim, com a literatura. Eu sempre digo que não é por vontade própria, é por necessidade. Ou eu escrevo ou eu morro, de tédio ou de doença. A minha arte, aquilo que eu sei fazer e amo fazer, é a literatura.
E esse reconhecimento, ele impacta de alguma forma no teu processo criativo, agora tu falando em escrever?
Na realidade, não impacta no sentido de mudar a minha maneira de escrever. Esse passo me traz mais responsabilidade, porque eu me torno mais conhecido e cada vez mais exigido e a cobrança pessoal se torna mais clara. Então, é uma maneira de a gente se aperfeiçoar, porque embora eu já tenha 14 livros publicados, aprendemos todos os dias. Vai se aperfeiçoando todos dias e eu ainda tenho muito o que aprender e estou sempre aprendendo, a cada livro que eu escrevo.
Por que esse livro foi o escolhido?
O primeiro livro que eu havia mandado para eles foi o Homos Perturbatus, que publiquei em 2016. É uma obra na qual eu deposito muita esperança de, no futuro, ser reconhecida fora do país também. E foi um dos meus livros que foram mais vendidos aqui no Brasil. Porém, eles concluíram que não era um tema que agradasse os italianos. Porque é uma crítica social voltada aos problemas brasileiros. Enquanto o Confissões, que depois eu mandei para eles analisarem também, traz uma questão universal. Porque em todo o mundo o câncer é uma praga que devasta famílias. O tema por si só, a superação de um câncer no estômago, primário, depois secundário no pâncreas e no baço, sensibiliza. Porque o câncer no pâncreas tem alto índice de mortalidade. Só quem tem a sorte, como eu tive, de identificar cedo consegue, vamos dizer assim, superar. Acho que o estilo de contar essa história toda agradou o pessoal.
E tu estás anunciando outros projetos inéditos, incluindo uma obra satírica, é isso?
Eu sou contratado da editora Urutau, de São Paulo, que lançou o Confissões no ano passado na Bienal do Rio de Janeiro. Eles me pediram um livro novo e eu tinha uma coisa encaminhada e preparei. O livro se chama Vôo Cego em Zona Morta, esse livro já está na editora, já está pronto e vai ser lançado na Feira Literária de Paraty, em julho. E depois, em setembro, vai ser lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Então, esse também é um grande passo na minha carreira, vamos dizer assim. Lançar o segundo livro pela tela Urutau. Eu vou participar da Flip, pela primeira vez, e da Bienal de São Paulo pela segunda vez. E tem uma terceira novidade, outro livro inédito, que eu estou fazendo a última revisão. E esse livro, eu não posso entrar em detalhes, porque é para um prêmio literário. O livro está trata de um assunto polêmico e satírico, porque as personagens são “fora da casinha”, vamos dizer, são fora da bolha.
