Enchentes deixaram marcas emocionais em jovens de Pelotas, aponta pesquisa

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Enchentes deixaram marcas emocionais em jovens de Pelotas, aponta pesquisa

Estudo com participantes da Coorte de Nascimentos de 2004 aponta que 43,7% dos jovens relataram impacto emocional após o desastre

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Enchentes deixaram marcas emocionais em jovens de Pelotas, aponta pesquisa
(Foto: Julia Barcelos)

Quase metade dos jovens acompanhados pela Coorte de Nascimentos de 2004, em Pelotas, relatou impacto emocional moderado ou severo após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Os dados foram apresentados nesta terça-feira (10), no Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e indicam que os jovens mais vulneráveis e diretamente afetados pelo desastre foram os que apresentaram maior comprometimento emocional.

A pesquisa integra o acompanhamento de jovens nascidos em 2004 e que, no período das enchentes, tinham 18 anos. A coorte é coordenada por Alicia Matijasevich, professora associada do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), e por Luciana Tovo Rodrigues, professora do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel.

Segundo Alicia, os resultados do estudo contrariaram a hipótese inicial dos pesquisadores. “Imaginávamos encontrar mais problemas de saúde mental, especialmente relacionados à ansiedade. O que vimos é que os jovens que apresentaram maior comprometimento foram justamente aqueles mais vulneráveis ou mais diretamente afetados pelas enchentes”, explica.

Dados levantados

O levantamento mostra que, embora a água tenha invadido a casa de apenas 8,8% dos entrevistados, os efeitos emocionais foram mais amplos. Cerca de um em cada três classificou o impacto como moderado e quase um em cada dez como severo. Ao todo, 43,7% relataram impacto moderado ou severo, enquanto outros 37,1% avaliaram a repercussão como leve.

De acordo com Mariana Xavier, pesquisadora da USP, eventos climáticos extremos podem atuar como estressores traumáticos, aumentando o risco de desenvolvimento de transtornos de saúde mental, como estresse pós-traumático, depressão e ansiedade. Ela também destaca o fenômeno da “ecoansiedade”, caracterizado por uma preocupação persistente com problemas ambientais. Jovens, mulheres e pessoas que vivem em países de baixa e média renda estão entre os grupos mais vulneráveis a esse tipo de impacto.

Por outro lado, experiências com eventos climáticos extremos também podem estimular mudanças de comportamento. Atitudes pró-ambientais – como evitar o desperdício de alimentos, economizar água ou reciclar resíduos domésticos – tendem a se tornar mais frequentes após situações desse tipo.

Resultados

Segundo Mariana, o estudo não identificou aumento nas dificuldades de saúde mental avaliadas pelo Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ) entre os períodos pré e pós-enchentes, o que contrariou a hipótese inicial dos pesquisadores. “Alguns fatores podem ajudar a explicar esses achados, como o apoio social, a eficácia coletiva, os efeitos ainda presentes da pandemia e também trajetórias normativas do desenvolvimento na transição da adolescência para a vida adulta”, explica.

Por outro lado, os pesquisadores observaram aumento da ecoansiedade entre os participantes mais severamente afetados. Os dados também indicam que quanto maior a exposição às enchentes e mais elevados os níveis de ecoansiedade, maior o engajamento dos jovens em comportamentos pró-ambientais. “Isso sugere um possível caminho entre experiências traumáticas e ações construtivas, mas reforça a necessidade de intervenções psicossociais voltadas especialmente aos jovens mais vulneráveis”, conclui Mariana.

Para o coordenador da Defesa Civil na Região Sul, Márcio Facin, a apresentação desses dados é de extrema importância para o aperfeiçoamento dos sistemas de prevenção a esse tipo de fenômeno. “Para trabalhar a prevenção, é fundamental que cuidemos também da saúde mental das pessoas, e que façamos isso em conjunto com a ciência. Dessa forma, conseguimos incorporar nas políticas públicas ações que preparem melhor a população para enfrentar esses desastres, que infelizmente tendem a continuar ocorrendo e até aumentar”, afirma.

Traumas e ideação suicida

Outro estudo apresentado na ocasião, também envolvendo a Coorte de 2004, aponta que experiências traumáticas acumuladas na infância e adolescência estão fortemente associadas à ideação suicida aos 18 anos. A pesquisa foi apresentada pela doutoranda em Saúde Coletiva na USP, Nara Brito. Resultados apontam que a exposição a traumas aumenta ao longo da vida e, quando maior o número de experiências, maior a probabilidade de pensamentos suicidas.

Entre as experiências consideradas potencialmente traumáticas estão violência física, psicológica ou sexual, violência doméstica ou comunitária, testemunhar agressões, perdas significativas, acidentes graves e desastres naturais.

De acordo com a pesquisa, aos seis anos, cerca de 12,4% dos participantes já haviam vivenciado algum evento potencialmente traumático. Aos 18 anos, esse número ultrapassava 80%. A prevalência de ideação suicida nessa idade foi de 7%, com maior frequência entre meninas. Ainda, as estimativas indicam que, se a exposição ao trauma cumulativo tivesse sido evitada até is 15 anos, cerca de 44% dos casos de ideação suicida poderiam não ocorrer.

Para Nara, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção precoce da violência e ao fortalecimento das redes de proteção à infância e adolescência. “Investir na infância é investir na saúde mental da juventude”, afirma.

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