Diferentemente dos outros netos da minha avó, eu tive que conquistá-la para termos a relação de muito carinho que temos hoje. Não era segredo para ninguém que eu era a “menos preferida”. Em momentos de contar histórias da infância, ela sempre contava da vez que, segundo ela, “incentivei” o suicídio do Papai Noel. A versão realista era que eu o desafiei a colocar o dedo no ventilador. Não me entendam mal, ela sempre foi uma avó maravilhosa e muito presente, mas, pela sua criação muito humilde e por ser da zona rural, trabalhando desde criança, nunca soube expressar seu carinho.
Mas, em algum momento da minha adolescência, sem rancor nenhum, percebi que ela não ia ficar por aqui para sempre e que eu ainda não tinha conquistado a relação que eu sempre quis ter com ela.
Então, assim como na paquera, comecei a convidá-la para sair semanalmente. Ia tomar café, inventava dores de cabeça para ela tratar – colocando pedaços de batata na minha testa, que, segundo ela, sugam a dor – e assim foi indo, até ela passar a me convidar toda semana.
Quando eu não aparecia, minha vó ligava. Quando eu estava distante, fazia o meu prato preferido: o nhoque da vó Amélia. Fofocávamos das amigas da igreja. Eu contava o que os jovens estavam fazendo. Ela ria das minhas piadas pesadas e fazia piores. Saíamos para tomar sorvete, comer croquetes. Ela quis conhecer meu namorado. Apenas nós três – isso, para ela, significava muita coisa. O fato de ser apenas nós, demonstrava formalidade e o quanto eu a respeitava como matriarca. Minhas tias começaram a notar: “Ela só conta certas coisas para ti, só se abre assim contigo.”
Mas, assim como na arte da conquista, chega a temida hora das três palavras que se espera ouvir uma vida inteira: “eu te amo”.
Perguntei para o meu pai e as minhas tias quando fora a última vez que ela havia falado que os amava. Nenhum deles lembrava. Minha conquista estava difícil, mas eu não me considero uma pessoa orgulhosa, e nossa relação estava cada vez melhor.
Então, cada vez que eu ia me despedir, falava que a amava, e a resposta era sempre a mesma:
— Eu também. Aparece, viu?
Depois de meses assim, me declarei como sempre e a questionei:
— Vó, tu me amas?
— Claro, muito.
Mas isso ainda não era o que eu queria ouvir. Queria as três palavrinhas mágicas.
Então, esta semana ela comemorou seus segundos 84 anos – sua carteira de identidade não está certa, e ela insiste nessa idade. A vela foi um oito com um ponto de interrogação. Durante o churrasco, insistia que fôssemos para a sala, para fugir dos mosquitos.
Depois de um tempo, cedi. Na hora, não fez muito sentido. Mas fiquei conversando com meu namorado naquela sala por cerca de meia hora, até a dona Amélia entrar e se sentar para conversar. Claro, ela queria fugir do barulho e conversar comigo – e ainda contar para o Luis Filipe as minhas histórias sendo uma criança arteira; afinal, as pessoas evoluem, mas não mudam tanto assim. Chegou a hora da despedida e, como sempre:
— Eu te amo muito, vó.
E chegou o momento tão esperado:
— Eu também te amo muito. Apareçam mais.
Não foram exatamente três palavras. Mas foi o suficiente. Eu me emocionei e me emociono de novo escrevendo. No final, o orgulho não leva a nada, e eu conquistei uma senhora de 84 anos.