Nos primeiros 20 dias do ano, o Rio Grande do Sul já registrou sete feminicídios. Gislaine Rodrigues, Letícia Foster, Marines Schneider, Josiane Alves, Paula Gabriela Pereira, Uliana Fagundes e Mirela Santos são as vítimas de crimes cometidos, em sua maioria, por companheiros ou ex-companheiros. Apesar do endurecimento da legislação, os casos seguem ocorrendo, embora a maior parte dos autores esteja presa.
Um dos crimes foi registrado na Zona Sul do Estado, em Canguçu. Letícia Foster, de 37 anos, estava desaparecida e foi encontrada sem vida em uma área de mata, com ferimentos no pescoço. O ex-companheiro da vítima foi preso por descumprimento de Medida Protetiva de Urgência (MPU), ocorrida antes da morte da vítima. Um ato em memória da canguçuense foi realizado no Calçadão de Pelotas.
Com o objetivo de prevenir novos casos de feminicídio e romper ciclos de violência doméstica, a Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam), vinculada ao Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPGV) da Polícia Civil, prendeu 29 pessoas e apurou 102 denúncias contra agressores em apenas 24 horas. A ação integrou a Operação Ano Novo, Vida Nova, deflagrada na terça-feira em diversas regiões do Estado.
Em Pelotas e Rio Grande, as equipes cumpriram mandados de prisão, além de mandados de busca e apreensão. Ao todo, foram expedidos 41 mandados em todo o Rio Grande do Sul. Durante a operação, quatro armas de fogo foram apreendidas.
Entre os presos está J.B.D.M., de 27 anos, detido no balneário Cassino, em Rio Grande, por equipes da DPGV. Ele foi encaminhado à Penitenciária Estadual do Rio Grande (Perg). De acordo com a delegada Alexandra Perez Sosa, titular da especializada, esta é a quarta prisão preventiva realizada nos últimos três dias. Dois homens de 48 e 25 também foram presos no Centro do município e um de 54, no bairro Boa Vista. Segundo ela, os casos envolvem extrema gravidade, mesmo diante da existência de medidas protetivas. “São situações em que os autores incendiaram a casa da vítima, perseguiram mulheres em seus locais de trabalho e praticaram agressões”, relata.
A delegada destaca que o foco das ações é o combate imediato ao descumprimento das medidas protetivas. “Isso demonstra a periculosidade desses indivíduos, que ignoram uma ordem judicial mesmo sabendo do risco de prisão. Nosso objetivo é evitar que novos feminicídios ocorram”, enfatiza. Para Alexandra, os números registrados neste início de ano reforçam a necessidade de intensificar as ações. “O ano começou com dados muito tristes. Estamos fortalecendo a rede de proteção e atuando de forma firme contra a violência doméstica”, completa.
Em Pelotas, as equipes da Polícia Civil cumpriram mandados de prisão e de busca e apreensão contra seis suspeitos. Conforme a delegada Márcia Chiviacowsky, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), há seis mandados de prisão preventiva decretados, mas os investigados não foram localizados. “Eles estão foragidos e, conforme as informações, podem estar fora do Estado”, explica. A Deam também investiga uma tentativa de feminicídio registrada no início da semana na rua Manduca Rodrigues. Na ocasião, o motorista de um veículo invadiu a contramão e atingiu uma motocicleta. A vítima ficou ferida e precisou ser hospitalizada.
Operação Vida Nova
A Operação Ano Novo, Vida Nova integra um conjunto de ações voltadas à redução dos índices de violência doméstica contra mulheres e meninas em todo o Estado. A ofensiva contou com a atuação de 363 policiais civis, entre agentes e delegados, além de 109 viaturas.
Além das prisões e buscas, a operação incluiu a fiscalização de denúncias anônimas, o monitoramento de tornozeleiras eletrônicas e a distribuição de material informativo em locais de grande circulação, com a mensagem “O ano mudou, sua vida também pode mudar”, reforçando a conscientização sobre a rede de apoio às vítimas.
Os resultados da ação foram apresentados em entrevista coletiva à imprensa, com a presença da secretária-adjunta da Segurança Pública, Adriana Regina da Costa; do chefe da Polícia Civil, delegado Heraldo Chaves Guerreiro; da subchefe da instituição, delegada Patrícia Tolotti Rodrigues; do diretor do DPGV, delegado Juliano Ferreira; da diretora da Dipam, delegada Waleska Alvarenga; além das delegadas Thais Dias Dequech, Cristiane Pires Ramos e Marina Dillemburg.