“A força do afeto ainda é maior do que a força do vício no celular”

Abre aspas

“A força do afeto ainda é maior do que a força do vício no celular”

Kátia Vielitz - Pedagoga

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Atualizado quarta-feira,
21 de Janeiro de 2026 às 10:31

“A força do afeto ainda é maior do que a força do vício no celular”
Profissional alerta para o uso de telas (Foto: Arquivo pessoal)

Durante as férias escolares, a mudança na rotina das crianças e o aumento do tempo livre contribuem para a ampliação do uso de telas, o que pode impactar o desenvolvimento emocional, cognitivo e o retorno às aulas. A pedagoga Kátia Vielitz explica por que esse período favorece a exposição excessiva a dispositivos digitais e destaca a importância do equilíbrio, da rotina e do vínculo familiar para minimizar os efeitos desse hábito.

Do ponto de vista pedagógico, o que muda na rotina das crianças durante as férias que acaba gerando o aumento do tempo de tela?
Ao longo do ano letivo, as crianças convivem com os amigos, estudam, têm o recreio e seguem uma rotina organizada. Durante as férias, em casa, ficam mais distantes desses colegas. Assim, por meio dos dispositivos digitais, conseguem manter contato, principalmente quando não é possível organizar programas presenciais. Além disso, o tempo de ócio é maior. As crianças estão cada vez menos acostumadas – e nós, adultos, também – ao ócio. Dessa forma, o telefone, a televisão e o computador acabam se tornando recursos para ocupar o tempo. O ócio é difícil para as crianças compreenderem, e precisamos ajudá-las por meio de alguns mecanismos de rotina. Por isso, é muito importante restringir alguns momentos do uso das telas, para que elas não passem o dia inteiro expostas, mas mantenham uma certa organização. O momento das refeições, de auxiliar nas tarefas domésticas e de realizar exercícios físicos, por exemplo, contribui para diminuir a dependência das telas.

Por que esse excesso impacta na emoção das crianças?
Tudo em excesso causa algum prejuízo. No caso do uso das telas, há impactos físicos, como problemas de visão e audição, especialmente quando a criança utiliza fones de ouvido por muito tempo. Isso também acontece com os adultos, que, ao permanecerem longos períodos em frente às telas, sofrem consequências físicas. É comprovado que a luz azul emitida pelos dispositivos pode prejudicar a visão. Do ponto de vista cognitivo e psicológico, os aplicativos e plataformas são pensados para serem rápidos, captarem a atenção, oferecerem sensação de recompensa e manterem o usuário o máximo de tempo possível conectados. É importante que tenhamos essa percepção para criar restrições para nós mesmos. A criança ainda não possui a mesma consciência que o adulto. Assim, precisamos nos monitorar para que, por meio do exemplo e da orientação, consigamos auxiliar as crianças.

Existe diferença conforme a idade?
Sim. Há recomendações de órgãos médicos de que crianças de zero a dois anos não sejam expostas às telas de maneira alguma, nem mesmo por curtos períodos. Conforme a idade avança, o tempo recomendado aumenta gradualmente, mas, até os sete anos, o ideal é que não ultrapasse uma hora diária. Depois disso, pode chegar a duas ou até três horas. Mesmo para os adultos, o ideal é não utilizar as telas da forma como ocorre atualmente. Ainda que se trabalhe 44 horas semanais, não é recomendado passar todas essas horas com a atenção exclusivamente voltada para a tela. É importante alternar com pausas, exercícios laborais, conversas e outras atividades. O equilíbrio é necessário em qualquer fase da vida.

Quais são as consequências para uma criança que usa mais telas?
Do ponto de vista pedagógico, o uso excessivo de telas pode resultar em crianças mais irritadiças, impacientes e com dificuldades para dormir. A atenção do adulto – o olhar, a escuta, a presença – é fundamental para a regulação emocional, psíquica e cognitiva da criança. Reservar momentos para estar junto, conversar e escutar torna a criança mais regulada emocionalmente, mais disponível e mais atenta. O vínculo com o adulto é essencial nesse processo, e precisamos dedicar a elas a nossa atenção. Quando pais ou responsáveis não reservam um momento para olhar no olho, conversar e escutar, a criança passa a se perguntar o que há de tão interessante no celular. Isso desperta o desejo pelo dispositivo. Não por acaso, nas brincadeiras infantis, é cada vez mais comum observar gestos que imitam o uso do celular. Todos esses sinais que as crianças nos dão precisam ser observados, compreendidos e trabalhados com elas. É isso que faz com que o celular perca força. A força do olho no olho, do abraço e do afeto ainda é maior do que a força do vício no celular.

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