O 14º Festival Internacional Sesc de Música, em Pelotas, abre espaço para um encontro singular entre história, pesquisa e sonoridade ancestral com o concerto do quarteto Arpas Guaranis, formado pelas harpistas Maria Inês Lermen, Andrea Fraga Wagner, Marion Hilgemann e Rosangela Soletti. O grupo realiza duas apresentações: nesta terça-feira (20), às 19h, no Conservatório de Música da UFPel, e na quarta-feira (21), das 17h às 18h, no Lounge do Festival, junto ao Mercado Central.
Com cerca de 15 anos de trajetória, o quarteto é resultado de uma pesquisa musical e histórica em torno da chamada harpa guarani, também conhecida como harpa missioneira ou harpa paraguaia. Trata-se de um instrumento de origem sul-americana, mais precisamente em solo gaúcho, construído nas reduções jesuíticas dos Sete Povos das Missões, no século 17, por indígenas guaranis tutorados por padres europeus. Mais simples do que a harpa de concerto, o instrumento é diatônico, equivalente, quando se compara, a ter somente às teclas brancas do piano, o que impõe limitações técnicas e exige soluções criativas de execução.
Segundo Maria Inês Lermen, a formação em quarteto foi justamente a resposta encontrada para ampliar as possibilidades musicais do instrumento. “Através da combinação dos sons e da harmonia, conseguimos executar um repertório mais amplo”, explica. O trabalho coletivo permite explorar nuances tímbricas e harmônicas que não seriam possíveis em apresentações solo.
Quarteto feminino
O grupo é composto por mulheres que iniciaram os estudos da harpa mais tarde, conciliando a prática musical com outras carreiras profissionais. Ainda assim, já se apresentou em mais de 150 cidades do Rio Grande do Sul e de outros estados, consolidando-se como referência na difusão da harpa guarani. A sede do grupo fica em Lajeado, no Vale do Taquari, região de origem da maioria das integrantes.
A escolha do nome Harpas Guaranis carrega um sentido simbólico: homenagear o povo indígena que preservou e transmitiu o instrumento ao longo dos séculos. Após a destruição das missões jesuíticas, os guaranis levaram a harpa consigo ao migrarem para regiões do atual Paraguai, garantindo sua sobrevivência histórica e cultural.
Concerto didático
Na apresentação de terça-feira as harpistas farão um concerto mais didático, contando um pouco sobre essa importante pesquisa, que identifica a harpa guarani como o único instrumento musical originário do Rio Grande do Sul. O repertório apresentado em Pelotas reflete esse diálogo entre tradição e diversidade.
O concerto transita pela música erudita, por obras de inspiração italiana, em referência aos 150 anos da imigração, e por composições ligadas à cultura missioneira.
Na parte final, a cantora Stella Maris participa como convidada especial. “É um programa eclético, que começa mais erudito e vai se tornando mais popular, dialogando com públicos diversos”, resume Maria Inês.
Para a harpista, a pesquisa sobre a harpa guarani é o eixo central do trabalho. “Ela nasceu aqui. É, possivelmente, o único instrumento genuinamente gaúcho”, afirma, destacando o valor histórico e identitário do instrumento que o quarteto mantém vivo no século 21.
