Comer, rezar e não dormir

Opinião

Helena Tomaschewski

Helena Tomaschewski

Estudante de Direito

Comer, rezar e não dormir

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Anualmente, repito a minha tradição de final de ano de rever o filme Comer, Rezar e Amar. Aos que não viram uma das minhas obras preferidas – e imploro que vejam –, trata-se de uma história real, protagonizada por Julia Roberts, recém-solteira, procurando se encontrar, relatando a própria experiência após o divórcio e a viagem que fez pela Itália, Índia e Indonésia em busca de equilíbrio emocional e espiritual.

O filme sempre me emociona e desperta a vontade de ter a experiência de um retiro espiritual. Considero-me uma pessoa em contato com as minhas emoções e equilibrada o suficiente para uma imersão na natureza, no silêncio, apenas com meus pensamentos.

Após a última semana, percebi que definitivamente não estou no nível de espiritualidade – ou na Itália, Índia ou Indonésia – para praticar tais métodos de meditação.

Logo após ver o filme, minha mãe sugeriu passarmos quatro dias na casa dos meus avós, na Campanha gaúcha, completamente imersos na natureza. Eu, acreditando em toda a minha experiência com equilíbrio emocional depois de ver o filme, achei que seria uma ótima ideia para finalizar o ano. Conectada comigo, com a natureza, com a família, em paz.

Comer não era problema: minha avó faz tudo o que mais amamos para nos agradar. Risoles, batata frita, carne de porco com geleia feita em casa, doce de figo…

Rezar já fazia parte da minha rotina diária. E, sobre amar, eu estava amando estar ali durante o dia. Porém, a atriz de Uma Linda Mulher esqueceu de mostrar a dificuldade do “dormir” no filme.

Na primeira noite, minha insônia começou. Eram cinco da manhã. Em um quarto em que eu não via um palmo à frente pelas janelas fechadas com “cortinas” de madeira. Silêncio completo. Nunca achei que fosse possível ouvir o nada ou, ainda, ver o nada. No desespero pelo sono que não vinha, decidi aplicar uma das lições do filme: “selecione os seus pensamentos, assim como você escolhe suas roupas”.

Eu pensava: “sono, sono tranquilo, sono feliz, bons sonhos…”. Nada. Em algum momento, mexendo no meu celular, depois de desistir, caí no sono. Pensei que tudo bem, no filme é exposto como os primeiros dias são difíceis.

Na segunda noite – rabugenta pelo sono que não tive na primeira –, decidi pôr em prática outra lição do filme: meditar por uma hora, com um sorriso no rosto, sentindo até o fígado sorrir – seja lá o que isso significa. Eu não tinha nada a perder. Eram duas da manhã e eu nunca estive com tantos pensamentos. Então, lá estava eu: sentada na cama, em posição de meditação, com um sorriso de orelha a orelha, no escuro do escuro, no silêncio do silêncio, no meio do nada e de mais nada em volta. Se alguém entrasse e acendesse a luz, com certeza se assustaria com a imagem.

Terceira e última noite. Eu já havia falado que iria embora antes, mas minha avó me convenceu a ficar. Realmente, com o tempo vai ficando mais fácil: eu tinha em mente que no outro dia iria embora. Mas tive uma pequena ajuda dos meus avós. Durmo no quarto ao lado do deles e, sendo pessoas de idade, eles me deram a sinfonia perfeita: roncos e diálogos extremamente românticos que me acalmavam, do tipo: “vira para o lado que tu tá roncando!”. Isso me lembrava que eles estavam ali, no quarto ao lado, juntinhos. Aquele combo era música para os meus ouvidos, que não aguentavam mais o nada.

Conclusão: eu e Julia Roberts temos métodos diferentes para entrar em paz interior. O meu é bem mais barato e menos trabalhoso.

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