“Os mausoléus são obras de arte e representavam a  classe social como forma de poder até na hora da morte”

Abre aspas

“Os mausoléus são obras de arte e representavam a classe social como forma de poder até na hora da morte”

Clarisse Ismério - doutora em História e coordenadora dos cursos de História e Pedagogia do Centro Universitário da Região da Campanha (Urcamp)

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“Os mausoléus são obras de arte e representavam a  classe social como forma de poder até na hora da morte”
Peça teatral foi criada como uma forma de educação patrimonial no cemitério da Santa Casa de Bagé

Já imaginou conhecer a história de uma cidade – ou de alguns de seus personagens ilustres – em um local nada convencional? Essa é a proposta da doutora em História e coordenadora dos cursos de História e Pedagogia do Centro Universitário da Região da Campanha (Urcamp), Clarisse Ismério, com o projeto “Sarau Noturno” em Bagé. Mausoléus e estátuas no Cemitério da Santa Casa de Caridade fazem parte do cenário de uma peça teatral realizada por alunos em que o objetivo é fomentar a educação patrimonial por meio de personagens ilustres.

Como surgiu o interesse por algo que desperta tanta curiosidade?

O que me levou a estudar a arte cemiterial foram as representações simbólicas, porque cada túmulo tem a sua que remete ou à mitologia ou às cenas de reinterpretação de cada época. Então, como o que me levou para a história foi a mitologia grega, também foi uma forma de colocar em prática esse lado.

Para os professores e alunos que estudam educação patrimonial, o tema ainda é visto como algo delicado?

Por mais que tenham estudos, ainda é um tabu para algumas pessoas que não entendem a relação das questões da simbologia da morte. Ainda existem pessoas que veem o Sarau como um desrespeito por estarmos fazendo uma atividade no cemitério.

Por que há tantos anos eram feitos mausoléus e hoje quase não vemos esse tipo de arte?

É a questão cultural e muita influência do positivismo no Brasil. Existia a cultura de preservar a memória e a história dos antepassados no cemitério, principalmente de figuras públicas. Temos que lembrar que embora seja algo da cultura francesa, ela veio muito forte para o Brasil, se expressou na parte política e o positivismo do Júlio de Castilhos foi extremamente forte. Grande parte do Rio Grande do Sul mantém essa cultura, tanto na representação fachadista como na arte cemiterial.

Qual a história mais te marcou ao longo desses anos de pesquisa?

Em Bagé temos o da mãe Luciana, que criou o primeiro orfanato para meninas negras e órfãs, o educandário São Benedito. A memória dela se perpetua como a mãe da caridade, mas não somente à assistencialista, ela empoderou essas meninas porque além da proteção, ela viu uma forma de educá-las para que tivessem a sua própria profissão e não dependesse das bem feitorias dos outros. Essa é a que mais me emociona porque foi uma mulher negra que tentaram invisibilizar e mesmo assim a história dela está forte até hoje.

Como funciona o Sarau Noturno?

É uma peça teatral conduzida no cemitério da Santa Casa. Iniciamos despretensiosamente como uma proposta de metodologia de educação patrimonial. Na pandemia, fizemos um filme de forma bem artesanal que está disponível nas redes sociais, em que o cemitério entrou na casa das pessoas de uma forma lúdica. Relacionamos o cemitério como um local de saudade, porém queremos trazer a história dos lugares e de seus personagens.

Como faz para participar?

O Sarau acontece no dia 31 de outubro, quando cai em uma sexta-feira, senão nos dias 28 e 29. Ano passado tivemos pessoas de fora de Bagé que vieram exclusivamente para o projeto. É aberto e gratuito. Informações no @saraunoturno.

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