Recentemente, o ranking internacional do instituto Ipsos apontou o Brasil como o sétimo país mais feliz entre 29 nações avaliadas. Diante disso, o psiquiatra Pablo Fernandes reflete sobre o que realmente significa ser feliz, abordando a diferença entre prazer momentâneo e felicidade duradoura.
Pelo olhar da psiquiatria, afinal, o que é felicidade?
Quando falamos em felicidade, é importante diferenciar duas coisas: a felicidade como emoção (prazer, alegria, um sentimento efêmero) e a felicidade como um estado mais amplo de bem-estar ao longo da vida. A psiquiatria hoje está muito mais interessada nessa segunda dimensão. A pesquisa do Ipsos mostra algo interessante: as pessoas associam a felicidade à saúde, à família, à espiritualidade. Mas, ao mesmo tempo, mais de 30% relatam que a saúde mental está ruim. Isso revela um certo desencontro entre o que a gente valoriza e o que consegue efetivamente viver no dia a dia.
Como explicar esse contraponto entre saúde mental e felicidade?
Atualmente vivemos uma cultura que vende a felicidade como algo que deveria estar sempre presente. Existe essa cultura “wellness”, que aposta no estilo de vida saudável e em coisas que as pessoas deveriam fazer para serem felizes. Em contrapartida, muitas vezes falta um fio condutivo, que é um sentido para esses hábitos. Não que hábitos saudáveis não sejam recomendáveis, mas é importante que isso esteja alinhado com uma vida que faça sentido. Eu diria que a felicidade tem mais a ver com o sentido e com o vínculo do que com o prazer. Também percebo uma baixa tolerância às frustrações. A nossa sociedade se acostumou a prazeres momentâneos e gratificações muito instantâneas, e parece que desaprendemos a passar por momentos de dificuldade e de tristeza que também fazem parte da vida.
Quais os pilares de uma vida mais feliz?
Um deles são as relações de qualidade: tempo com a família, com amigos, com pessoas importantes na nossa vida. Outro é esse senso de sentido e propósito. É aí que muitas vezes entra a espiritualidade – não necessariamente uma religião formal, mas uma vida espiritualizada, acreditar em algo, ter um momento de conexão consigo mesmo, meditar. Essa conexão ajuda a trazer sentido e propósito, além de desenvolver a capacidade de regular emoções e ser resiliente frente às dificuldades. Claro que também entram hábitos básicos: um sono reparador, cuidado com o corpo, com a saúde e com a rotina.
No dicionário, felicidade aparece como um estado de consciência plenamente satisfeita. Essa definição conversa com a psiquiatria?
Acredito que sim. Isso conversa com uma ideia muito antiga, que remonta à filosofia grega, especialmente ao Aristóteles. Para ele, a felicidade não é apenas sentir prazer, mas viver uma vida com sentido – aquilo que ele chamava de eudaimonia. É uma jornada de tentar compreender a nossa vida e o mundo ao nosso redor e tirar o melhor proveito dessa oportunidade de viver. Isso envolve muitos fatores: hábitos, relações, a forma como cuidamos da nossa saúde e conduzimos nossa vida. Também é importante perceber que as redes sociais e o entretenimento muitas vezes nos fazem acreditar em uma vida sem frustrações. Mas a felicidade é um caminho em construção. Pequenos momentos de felicidade não são tudo – assim como as frustrações também não precisam desmontar a felicidade que estamos construindo ao longo do tempo. É preciso resiliência para atravessar os momentos difíceis.
