O cirurgião-dentista que amava as óperas de Verdi

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

O cirurgião-dentista que amava as óperas de Verdi

Por

Não é de hoje que o espírito da música, e particularmente da ópera, encontra-se entre nós. Já na época das charqueadas, quando o viajante suíço-alemão Carl Seidler visitou a Freguesia de São Francisco de Paula [futura Pelotas], ele não somente registrou no ano de 1827 em seu diário que “o piano se encontra em todas as boas casas”, mas que viu e ouviu nos arredores da povoação a música tocada por “negros e mulatos” em um “grosso pedaço de tronco oco, revestido de couro”, a qual era acompanhada por “outros instrumentos de sons que casavam com o do tambor”, uma “música pela qual certamente teria manifestado respeito o próprio tambor-mor Rossini” (Livraria Martins, p. 93 e 204). E durante as comemorações do primeiro centenário da cidade em 1912, João Simões Lopes Neto informou que dentre as atividades do “programa para a comemoração” estava prevista a execução da abertura da ópera “O Guarani e outros trechos de óperas nacionais” (Revista do 1o Centenário, n. 1, p. 2).

Ao explorar a coleção de álbuns de ópera que Wilmar Giacobbe reuniu entre 1954 e 1984 (retomo aqui, portanto, a sequência do artigo que publiquei em A Hora do Sul em 14-15/03/2026) podemos perceber que sua paixão era, sobretudo, pela ópera italiana. Dentre os vinte e seis compositores de sua discoteca, dezessete nasceram e viveram na Itália entre os séculos 18 e 19: Spontini (1774-1851), Rossini (1792-1868), Mercadante (1795-1870), Pacini (1796-1867), Donizetti (1797-1848), Bellini (1801-1835), Verdi (1813-1901), Ponchielli (1834-1886), Boito (1842-1918), Leoncavallo (1857-1919), Puccini (1858-1924), Mascagni (1863-1945), Cilea (1866-1950), Giordano (1867-1948), Montemezzi (1875-1952), Wolf-Ferrari (1876-1948) e Zandonai (1883-1944). De alguns destes compositores italianos ele possuía não mais que duas ou três óperas, sendo a parte substancial da coleção formada por sete álbuns de Rossini, sete de Bellini, sete de Leoncavallo, quatorze de Puccini, vinte de Donizetti e quarenta e cinco de Verdi.

Já em relação aos compositores de ópera de outros países, o cirurgião-dentista que atuava em Pelotas tinha em sua coleção as obras dos franceses Charles Gounot (1818-1893), Georges Bizet (1838-1875), Jules Massenet (1842-1912) e Gustave Charpentier (1860-1956); do alemão Giacomo Meyerbeer (1791-1864); do brasileiro Carlos Gomes (1836-1896); do russo Modest Mussorgsky (1839-1881); e de dois compositores que, embora nascidos em outros países, radicaram-se na França: Luigi Cherubini (1760-1842) e Jacques Offenbach (1819-1880).

Como todo bom conhecedor de ópera, “W.G” tinha predileção por escutar a mesma composição de um determinado autor em diferentes orquestrações. É o caso de Adriana Lecouvrer, de Cilea; Andrea Chénier, de Giordano; Cavalleria Rusticana, de Mascagni; Il Pagliacci, de Leoncavallo; Norma, de Bellini; Werther, de Massenet; A Boêmia, Madame Butterfly e Manon Lescaut, de Puccini; Anna Bolena, L’Elisir D’Amore e Lucia di Lammermoor, de Donizetti; e, para não restar dúvida de seu gosto por Verdi, há várias orquestrações e diferentes intérpretes de Aida, Il Trovatore, La forza del destino, La Traviata, Luisa Muller, Otelo, Requiem, Rigoleto, Stiffelio e Simon Boccanegra.

No que diz respeito aos seus intérpretes preferidos na ópera, encontramos várias obras com a soprano grega Maria Callas (1923-1977), sendo que após seu falecimento ele adquire em 1978 o álbum The Art Of Maria Callas. Outra intérprete de seu gosto é a soprano australiana Joan Sutherland (1926-2010). Dentre os homens destaca-se o barítono italiano Tito Gobbi (1913-1984). E em relação aos maestros, uma matéria de jornal colocada dentro do álbum Alle Ouvertüren und Vorspiele, de Verdi, pode dar-nos uma ideia de sua preferência, publicada sob o título: “Incidentes e a fama de um insuperável orgulho acompanham Herbert von Karajan” (Correio do Povo, Domingo, 22/01/1976).

Haveria muito para falar e para refletir sobre esta coleção de ópera que pertenceu a um cirurgião dentista em Pelotas. Por exemplo, que ele certamente lia os artigos de críticos de música que escreviam sobre ópera em jornais do Rio Grande do Sul, como bem demonstra um texto que guardou sobre a obra Mefistofele, de Boito (também publicada no Correio do Povo, em 31/03/1979). Que ele se deu ao trabalho de traduzir do espanhol para a língua portuguesa o enredo da ópera Luisa Muller, de Verdi, num bloco de notas de vinte e seis páginas que guardou na caixa do álbum. E que registrava até mesmo as datas em que escutava as óperas, como parecem indicar as anotações feitas na caixa do álbum Don Carlos, de Verdi: “27/07/1957; 28/07/1958; 20/01/1960”.

Mas gostaria de finalizar, na qualidade de um estudioso de Friedrich Nietzsche, que o filósofo alemão certamente ficaria contente em verificar que no extremo sul do Brasil um amante de ópera tivesse em sua coleção uma obra de Bizet (Os pescadores de pérola) e nenhuma obra de Richard Wagner. E certamente também ficaria curioso para escutar a única ópera lírica que “W.G” possuía de um compositor sul-americano, a saber: A noite no Castelo, de Carlos Gomes (gravada ao vivo na cidade de Campinas, em 14 de setembro de 1978).

Acompanhe
nossas
redes sociais