“O espaço comercial tem que entregar um pouco mais do que apenas o produto, tem que ser uma experiência”

Abre aspas

“O espaço comercial tem que entregar um pouco mais do que apenas o produto, tem que ser uma experiência”

Marcella Lorenzon - Jornalista de moda

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Atualizado sexta-feira,
27 de Março de 2026 às 10:33

“O espaço comercial tem que entregar um pouco mais do que apenas o produto, tem que ser uma experiência”
(Foto: Ana Cláudia Dias)

Dez coisas que aprendi prestando atenção em moda foi o tema abordado pela jornalista de moda Marcella Lorenzon, em Pelotas, durante o lançamento do Fashion Days 2026, que ocorrerá no Shopping Pelotas nos dias 8 e 9 de abril, sob a curadoria de André Guerra. A especialista fez ponderações sobre o universo fashion, refletiu sobre o comportamento de quem produz e de quem consome e sobre a importância de se valorizar a produção local.

Como é que tu vê o papel dos espaços comerciais, como shoppings, na construção da relevância cultural da moda?

Tem que ser um espaço de convivência, um espaço de proporcionar experiência. O produto, a marca, seja ela local ou internacional, vai estar ali, para quem quiser ver na internet. Para atrair o público, o espaço comercial tem que entregar um pouco mais do que apenas o produto, tem que ser uma experiência. Que seja o nosso vendedor da vida inteira, que conhece o que a gente gosta, seja um vendedor que sabe muito sobre o produto que vai poder me ajudar, seja porque o espaço é um espaço que me traz outras coisas para além do que eu vou buscar ali, eu vou comer, eu vou buscar, um serviço, o que é muito efetivo. Então eu acho que cada vez mais a gente constrói menos a ida à loja e sim a ida ao espaço comercial. Eu venho ao Shopping Pelotas e eu aproveito pra ver o presente, para ver a meia que eu precisava e almoçar e aquilo vira parte de um lifestyle, de uma vida. Tem que entregar mais do que o produto, porque senão eu pesquiso na internet e já chego aqui com o produto.

Quando é que a moda deixa de ser apenas um produto e vira essa experiência cultural? E como isso muda a relação entre o consumidor, a loja e a cidade?

Bom, eu já acho que a moda, desde o princípio, é a cultura, ela é esse espelho do que a gente vê. Então, acho que primeiro é abrir esse olhar para o que não estamos falando da roupa. Há uma confusão muito grande entre o que é vestuário e o que é moda. A moda é esse ar do tempo, o que a gente sente como sociedade, num determinado país, numa determinada cidade, como aquilo reflete no nosso cotidiano. O vestuário que a gente vai vestir é uma outra coisa. Mas para interligar isso o ambiente tem que conversar muito com a cidade, com as pessoas que vivem nele. A gente cansa de ver shoppings e centros comerciais que abrem em lugares errados. Em Porto Alegre mesmo a gente tem um agora, grande, que abriu um lugar lindo e tal, que tem o mix de produtos que não conversa com as pessoas que vão lá. E o resto das ações proporcionadas por esse estabelecimento também tem que conversar. Seja proporcionando uma semana de moda, uma semana de gastronomia ou seja uma série de eventos que tragam a comunidade para viver aquele espaço para além da compra.

E tu acredita que eventos de moda, em contexto local, conseguem competir com a influência do caça-clique da internet?

Eu acho que a gente tá cada vez mais conseguindo olhar para o que é local e o que é feito próximo. Claro que tem muito essa ponta do que vem de fora, a gente se baseia lá no dado chinês da roupa. Mas a gente tem que olhar para o que está aqui e preservar isso, olhar para isso como uma coisa única, porque é feito pelas pessoas daqui. É quase aquilo que se fala do vinho, o terroir. Quando o espaço comercial consegue desvendar o que tem ali de único, ele consegue fazer os eventos com essa característica.

Pensando na moda como espelho do tempo, como você interpreta o momento atual, está mais próximo de um reflexo fragmentado ou de reconstrução de uma identidade própria?

Eu como uma adoradora da moda tenho que ser realista. Eu acho que a gente tá vivendo um período muito fragmentado. As pessoas têm muita dificuldade de se encontrar também na moda, de se encontrar no que eu sou, porque eu tenho informação de todos os lados. Desenvolver a própria personalidade parece que está cada vez mais difícil. A gente vive com essa chuva de informação e eu não sei se eu quero ser de um jeito ou de outro. Então, na minha visão, é um espelho bem fragmentado. Acho que a gente tem como colar, tem esperança, mas acho que é um período bem tenso.

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