Um grupo de adolescentes faz um ranking de meninas “estupráveis” no IFSul de Pelotas. Essa é a notícia que vem revoltando a comunidade pelotense e ganhando repercussão rápida a nível estadual e até federal, dentro do tópico da violência de gênero. A notícia mais recente, porque na semana passada era o policial que se autodenominava “macho alfa provedor” e cobrava que a esposa fosse “fêmea beta submissa”. Ele matou ela. São mais de 20 feminicídios este ano no RS. Centenas no país. Tudo isso fomentado por uma cultura que precisa ser combatida a cada dia e sobre um tema que precisa ser falado e repetido à exaustão.
A diferença entre o jovem que brinca em um grupo de amigos sobre colegas serem “estupráveis” e um feminicida, um estuprador, ou algo do tipo é uma só: o tempo. Sem intervenção, sem revolta coletiva, punição e reeducação, a coisa vai caminhar para essa direção, fatalmente. Enquanto não nos olharmos no espelho enquanto sociedade machista que somos – sim, os dados e a realidade comprovam isso, é um problema individual e coletivo –, esses casos vão se repetir. Atropelam uns aos outros e até nos esquecemos, já que é uma sobrecarga de notícias terríveis com a mesma base.
A mudança começa em casa, com o diálogo, com a reeducação, mas também com punições significativas a criminosos e exemplo de lideranças e figuras públicas. Com o aumento da representatividade feminina em espaços de poder político, social e empresarial. Com uma cultura de igualdade, de fato. Em uma mesma cidade em que apenas duas das 21 cadeiras do parlamento são ocupadas por mulheres, e ambas relatam constantemente que são silenciadas ou constrangidas, isso é um sintoma. Em um mercado de trabalho onde mulheres ganham menos ou são vistas como inferiores, também.
A violência é diária, constante e está por tudo. Salta aos olhos quando uma mulher morre, quando um ranking de estupráveis vira assunto na mídia, quando há agressão física. Mas também é no pequeno detalhe, no salário desigual, no silenciamento e na reprodução de padrões e discursos já obsoletos e revoltantes. É preciso mudar a sociedade e isso começa com a mudança de cada indivíduo. Se não, seguiremos andando em círculos, sendo atropelados por mais e mais notícias e debatendo até quando isso vai ser assim, sem de fato mudar.
