Estudantes cobram resposta do IFSul após casos de assédio

Mobilização

Estudantes cobram resposta do IFSul após casos de assédio

Manifestação desta quarta-feira terá ainda denúncia contra professores

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Atualizado terça-feira,
24 de Março de 2026 às 16:49

Estudantes cobram resposta do IFSul após casos de assédio
(Foto: Jô Folha)

Alunos do campus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) estão se mobilizando para protestar contra o caso de assédio registrado na instituição, após vir a público um “ranking” sobre alunas, com conotação sexual. O protesto será realizado nesta quarta-feira (25), às 12h30min, em frente ao prédio da instituição, na praça 20 de Setembro.

O caso grave envolve um “ranking de estupráveis” organizado por alunos sobre outras estudantes menores de idade da instituição. Segundo uma das organizadoras do protesto, uma estudante de 16 anos do curso de eletromecânica, essa não é a primeira vez que casos como esse acontecem no IFSul. “Estamos organizando o protesto em relação ao caso em si e pela demora da resposta da instituição devido a casos anteriores com outros alunos”, denuncia.

Além dos apontamentos recentes, a estudante salienta que o movimento espera criar um ambiente de acolhimento para que outras vítimas se sintam seguras para denunciar. “Esperamos que essa manifestação resulte em medidas de proteção às meninas e aos alunos que passam por esse tipo de coisa e sentem medo de denunciar. Queremos criar um lugar seguro para nos sentirmos confortáveis, acolhidas e escutadas”, completa.

Denúncias se ampliam e atingem também professores

Segundo o grupo de manifestantes, o movimento incluirá a cobrança pela postura de professores da instituição. Relatos de alunas apontam para condutas inadequadas dentro da instituição.

A estudante relatou que, após a repercussão do caso, diversas alunas passaram a compartilhar experiências semelhantes. Entre os depoimentos, há acusações de assédio durante aulas. Segundo os relatos, algumas estudantes afirmam terem sido tocadas sem consentimento ou alvo de comentários de cunho sexual por parte de professores, além de situações em que posições corporais durante exercícios físicos teriam sido sexualizadas.

As estudantes afirmam ainda que o caso recente não é isolado. Segundo elas, já houve outros episódios envolvendo a circulação de listas e conteúdos ofensivos sobre alunas. Parte desses materiais só teria vindo à tona agora, apesar de serem práticas recorrentes. Há também relatos de situações semelhantes envolvendo estudantes do sexo masculino como vítimas.

Também surgiram acusações sobre histórico de casos envolvendo docentes. Segundo as estudantes, situações anteriores teriam sido tratadas com transferência de professores entre campi, sem afastamento definitivo. Há menção ainda a um professor que teria acumulado diversas denúncias ao longo dos anos, deixando a instituição apenas após aposentadoria.

Oito estudantes estão afastados

O Diretor-geral do Câmpus Pelotas, Rafael Krolow Santos Silva, informou que tomou conhecimento do caso a partir de denúncias feitas pelos próprios estudantes. Ao todo, oito alunos menores de idade foram identificados como envolvidos na elaboração e no compartilhamento do material.

A instituição afirma que adotou uma série de medidas, incluindo o afastamento cautelar por tempo indeterminado dos estudantes, abertura de processos administrativos internos e a criação de uma comissão extraordinária para apurar os fatos e propor ações de proteção às mulheres. Também foram realizadas reuniões com familiares e oferecido acompanhamento às vítimas por equipes de psicologia e serviço social.

O caso foi encaminhado a órgãos externos, como Polícia Civil, Ministério Público e Conselho Tutelar, e poderá ter desdobramentos na esfera criminal. O IFSul afirmou ainda que dará apoio à realização do protesto organizado por estudantes e reforçou, em nota, que não tolera qualquer forma de assédio ou violência, garantindo a apuração com responsabilidade e respeito às partes envolvidas.

Questionamento sobre medidas adotadas

As medidas anunciadas pela instituição também são alvo de críticas por parte das alunas. De acordo com a organização, a decisão de suspender, e não expulsar, os estudantes envolvidos é considerada insuficiente. A Justificativa apresentada seria a garantia do direito à educação por se tratarem de menores de idade. As estudantes, no entanto, contestam o argumento. “Eles podem sair do IFSul e ir para outra instituição. A gente deveria ter o direito de que eles sejam expulsos”, afirmou.

Especialista alerta para gravidade

Para a psicóloga Thais Vieira, o caso precisa ser tratado com seriedade e vai além de um comportamento típico da adolescência. Segundo ela, trata-se de uma forma de violência simbólica que expõe desrespeito e objetificação das meninas. A profissional destaca que a escola tem papel central tanto no acolhimento das vítimas quanto na responsabilização dos envolvidos. “Não basta apenas punir. A escola precisa educar, promover diálogo e trabalhar temas como respeito, consentimento e responsabilidade nas relações”, afirma.

A psicóloga também chama atenção para influências externas, especialmente conteúdos consumidos nas redes sociais. De acordo com ela, discursos associados à chamada cultura “Red Pill” podem reforçar visões distorcidas sobre mulheres, contribuindo para a naturalização da objetificação.

Thais ressalta ainda que comportamentos como esse, quando não enfrentados, podem evoluir para formas mais graves de violência. “Existe uma continuidade entre desrespeito, objetificação e violência. Por isso, a intervenção precoce é essencial”, pontua.

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