No mês da mulher, um tema que antes era cercado de silêncio e tabus, vem sendo ressignificado pelas mulheres contemporâneas: a menopausa. Mais do que o fim da fase reprodutiva, o período tem sido encarado como uma transição marcada por mudanças físicas, emocionais e, cada vez mais, por autonomia e autoconhecimento. Para mulheres pelotenses que chegaram nessa fase, a transição tem sido encarada de forma séria, porém com mais leveza.
A menopausa é definida como a última menstruação da mulher e ocorre, em média, por volta dos 50 anos. Segundo a médica ginecologista e professora da Iândora Sclowitz, que é especialista no tema, trata-se de um processo natural, provocado pela queda dos hormônios estrogênio e progesterona, que leva à interrupção definitiva da ovulação.
Entre os sintomas mais comuns estão a irregularidade menstrual, ondas de calor, os chamados fogachos, alterações de humor e distúrbios do sono. A longo prazo, também podem surgir impactos mais amplos na saúde, como aumento do risco cardiovascular, osteoporose, mudanças no metabolismo e alterações na pele, cabelos e cognição. Apesar das manifestações físicas, os efeitos emocionais também são significativos e variam conforme a história e o contexto de cada mulher.
Entre perdas e libertações
Para a professora de psicologia da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Lúcia Grigoletti, a forma como a menopausa é vivida está diretamente ligada à cultura e ao tempo histórico. “As representações de qualquer fenômeno emocional são construídas conforme a época. E a mulher de hoje ocupa diferentes espaços de produção, não apenas o da maternidade”, explica.
Se antes a fertilidade era vista como principal valor feminino, hoje muitas mulheres se realizam em outras dimensões, profissionais, sociais e pessoais. Essa mudança amplia a forma de enxergar a menopausa. “Para algumas, parar de menstruar pode representar até um momento de liberdade. Mas isso é muito subjetivo. Há também desconfortos físicos e emocionais decorrentes da queda hormonal, que impactam diretamente o bem-estar”, pontua. A especialista destaca que corpo e mente estão em constante interação. Oscilações de humor, irritabilidade e até quadros depressivos podem surgir nesse período, exigindo atenção e, em alguns casos, acompanhamento profissional.
Envelhecer ainda é um desafio
Embora mais discutida, a menopausa ainda carrega o estigma do envelhecimento. A queda hormonal pode ser percebida como sinal de perda da juventude, da vitalidade ou até da identidade feminina. “Existe uma pressão cultural que associa o envelhecimento à desvalorização. Mas, ao mesmo tempo, vemos hoje mulheres mais velhas ativas, produtivas e com qualidade de vida”, observa Lúcia.
Para ela, há também um aspecto simbólico importante: o corpo feminino carrega marcas que contam uma história. “A mulher vive diferentes fases, menstruação, gestação, puerpério e menopausa, e isso exige uma capacidade de adaptação e reinvenção constante.”
Falar sobre o tema faz diferença
Se antes o assunto era tratado de forma solitária, hoje o compartilhamento tem papel fundamental. Conversar com familiares, amigas e profissionais de saúde pode ajudar a compreender melhor as mudanças e reduzir o impacto emocional. “Quando a mulher compartilha, ela percebe que não está sozinha. Esse sentimento de pertencimento fortalece e ajuda no enfrentamento dos sintomas”, explica a psicóloga.
Esse diálogo também contribui para o ambiente familiar. Com mais informação, parceiros e filhos tendem a compreender melhor as oscilações do período, tornando a convivência mais empática.
Quando buscar ajuda
Cada mulher vivencia a menopausa de forma única. Em alguns casos, o período pode desencadear ou intensificar conflitos emocionais, especialmente quando associado a outras mudanças da vida. “Às vezes, essa fase reativa questões antigas e gera uma sobrecarga emocional. Quando há sofrimento significativo, a terapia é fundamental para ajudar na compreensão e reorganização desses sentimentos”, orienta Lúcia.
Já do ponto de vista físico, o acompanhamento médico é indispensável. A terapia hormonal, por exemplo, é considerada o tratamento mais eficaz para aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida, embora nem todas as mulheres possam utilizá-la. A indicação deve ser feita de forma individualizada, após avaliação clínica.
Uma vivência real
A experiência da menopausa pode ser ainda mais desafiadora quando ocorre em meio a outras mudanças. Aos 47 anos, Tatiana Machado de Sousa enfrentou o período durante um momento de perdas pessoais.
“Foi uma mistura de emoções. Eu estava passando por divórcio, mudança de cidade, perda do meu pai e afastamento dos meus filhos. Tive alterações de humor, calorões e problemas físicos que afetaram minha autoestima”, relata.
Sem poder realizar terapia hormonal, ela buscou outras formas de enfrentamento. “O que mais me ajudou foi participar de um grupo de mulheres e tocar percussão. Me senti acolhida. Também faço exercícios físicos, que ajudam bastante”, conta.
Para Tatiana, o apoio coletivo foi essencial. “Ter um grupo fez toda a diferença. A gente percebe que não está sozinha.”

Alimentos à base de soja são ricos em isoflavonas, substâncias com estrutura semelhante ao estrogênio (Foto: Divulgação)
Qualidade de vida é o foco
Com o aumento da expectativa de vida, as mulheres passam cerca de um terço da vida na pós-menopausa. O desafio, segundo especialistas, é garantir qualidade nesse período.
Lúcia Grigoletti lembra que mais do que o fim de um ciclo, a menopausa pode representar um novo começo marcado por autonomia, informação e a possibilidade de viver essa fase com mais naturalidade e bem-estar.
Entrevista com especialista, Iândora Sclowitz, médica ginecologista e professora da UCPel
O que exatamente é a menopausa e em que fase da vida da mulher ela costuma acontecer?
A menopausa é a última menstruação da mulher. Trata-se de um evento fisiológico, que representa a interrupção definitiva da ovulação, em decorrência do envelhecimento dos ovários. Em geral, ocorre por volta dos 50 a 51 anos.
Quais são os sintomas mais comuns nesse período?
Os sintomas mais frequentes incluem a irregularidade menstrual, que costuma ser um dos primeiros sinais e evolui até a ausência completa de menstruação por 12 meses. Também são comuns os sintomas vasomotores, conhecidos como fogachos ou ondas de calor, além de alterações de humor, como depressão, e distúrbios do sono.
Como as alterações hormonais impactam a saúde física das mulheres?
Com a menopausa, há uma queda significativa nos níveis de estrogênio e progesterona. O estrogênio tem papel fundamental na proteção dos vasos sanguíneos e dos ossos. Com sua redução, aumentam os riscos de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC, além de osteoporose e fraturas.
Também podem ocorrer alterações no metabolismo, como aumento da gordura abdominal, maior risco de diabetes tipo 2 e diminuição da massa muscular. No sistema geniturinário, há maior propensão à atrofia vaginal e infecções urinárias. Além disso, podem surgir mudanças na pele, cabelos, sistema nervoso e musculoesquelético.
Essas manifestações são iguais para todas as mulheres?
Não. Os sintomas variam de mulher para mulher e dependem de fatores como composição corporal, estilo de vida, saúde mental e presença de outras doenças. Hábitos como tabagismo e sedentarismo, por exemplo, podem intensificar os sintomas.
Exames clínicos podem indicar o início da menopausa?
Sim, mas o diagnóstico é predominantemente clínico, baseado nos sintomas e histórico da paciente. Em alguns casos, podem ser solicitados exames laboratoriais, como dosagem de FSH e estradiol.
Além das ondas de calor e alterações de humor, existem outros sintomas menos conhecidos?
Sim. Embora esses sejam os mais precoces, outras manifestações podem surgir a longo prazo, como a síndrome geniturinária, alterações sexuais, prejuízos cognitivos, além de doenças cardiovasculares e osteoporose.
Por que a terapia hormonal é importante?
A terapia hormonal é considerada o tratamento mais eficaz para aliviar os sintomas da peri e pós-menopausa. Além disso, contribui para a melhora da qualidade de vida das mulheres nesse período.
Em quais casos a terapia hormonal é indicada?
Ela é indicada principalmente para tratar sintomas vasomotores, prevenir a osteoporose e aliviar sintomas vulvovaginais. Também pode trazer benefícios como melhora do sono e efeitos positivos sobre músculos e cartilagens. No entanto, é fundamental que a mulher passe por avaliação médica antes de iniciar o tratamento, para descartar possíveis contraindicações.
Alimentos à base de soja ajudam a reduzir os efeitos da menopausa?
Alimentos à base de soja são ricos em isoflavonas, substâncias com estrutura semelhante ao estrogênio. Eles podem ter algum efeito benéfico, mas não substituem o tratamento médico e não são considerados uma forma de tratar os sintomas da menopausa.
Após a menopausa, a mulher deve continuar em acompanhamento médico?
Sim. O acompanhamento regular é essencial para entender as mudanças do corpo, investir em prevenção e manter a qualidade de vida. Também é importante para o rastreamento de doenças, possibilitando diagnóstico precoce e tratamento adequado.
