Atuação de Márcia Foster Mesko vai além da análise científica e chega à transformação social

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Atuação de Márcia Foster Mesko vai além da análise científica e chega à transformação social

Uma referência na área química analítica, professora da UFPel tem trabalho reconhecido internacionalmente

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Atuação de Márcia Foster Mesko vai além da análise científica e chega à transformação social
(Foto: Divulgação)

Na construção de uma ciência comprometida com a saúde da sociedade, a trajetória da professora Márcia Foster Mesko, da Universidade Federal de Pelotas, é marcada por rigor técnico, reconhecimento internacional e, sobretudo, pela formação de novas gerações de pesquisadores. Com atuação consolidada na química analítica, ela lidera um grupo de pesquisa que transforma desafios científicos em soluções com impacto direto no cotidiano.

Formada em Química pela própria antiga Escola Técnica Federal de Pelotas, hoje Instituto Federal Sul-Rio-Grandense, e depois no bacharelado e licenciatura em Química, pela UFPel, com mestrado e doutorado em Química Analítica pela Universidade Federal de Santa Maria, Márcia retornou a Pelotas em 2009 como docente, trazendo na bagagem experiência em pesquisa e atuação em instituições estratégicas. Antes disso, lecionou na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul.

Atuou como química da Farmacopeia Brasileira, vinculada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ainda participou da produção de materiais de referência no Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia — incluindo padrões inéditos na América do Sul para fármacos como captopril e diclofenaco.

Na universidade, sua atuação extrapola a sala de aula. Márcia foi uma das responsáveis pela criação dos cursos de Farmácia e Química Forense da UFPel, contribuindo diretamente para a expansão da formação científica na região. Hoje, além de professora associada, participa de três programas de pós-graduação e ocupa funções estratégicas na gestão da pesquisa institucional.

Ciência ligada ao cotidiano

O trabalho do grupo multidisciplinar, que integra alunos da graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, liderado pela pesquisadora, está centrado no desenvolvimento de métodos analíticos para identificar elementos químicos – tanto tóxicos quanto necessários – em diferentes elementos, como alimentos, cosméticos, medicamentos e amostras ambientais. O grupo desenvolve métodos que não estão disponíveis ainda ou busca melhorar o que já existe, criando uma instrumentação mais apropriada para determinar em concentrações mais baixas com precisão.

“Às vezes tem a instrumentação mas falta saber como analisar, desenvolvemos os métodos, os protocolos para que tenhamos essas informações de maneira correta, segura, que não tenha erro na análise”, fala a cientista. As pesquisas vão ao encontro de questões contemporâneas, como: segurança alimentar, qualidade de produtos industriais, impactos ambientais e saúde pública.

Na prática, isso indica a investigação da presença de metais pesados em maquiagens e alimentos até o controle de substâncias como o arsênio no arroz, cereal fundamental para a economia do Rio Grande do Sul. “Temos algumas linhas nessa parte. 
Uma delas é, por exemplo, na parte de cosméticos de maquiagem. Fazemos a determinação dos elementos que podem causar alguma toxicidade, algum dano ao organismo pelo uso. Acabamos ingerindo uma parte todo dia, então isso precisa de um controle da exposição né de alguns elementos”, explica a professora Márcia.

Entre os alimentos, a cientista exemplifica com a necessidade de se controlar os químicos, que podem estar presentes nos produtos de nutrição. “Tem alguns elementos que são essenciais como o iodo, tem que ter uma ingesta adequada para o correto funcionamento da glândula tireoide”, fala.

Para a professora o maior desafio é criar novas metodologias mais eficientes para detecção desses agentes químicos que não são favoráveis à saúde. Associado a essa problemática se junta outra premissa: o protocolo precisa ser sensível e rápido, porque o tempo impacta na economia dos territórios e na saúde das comunidades. “Antigamente havia métodos que levavam dois dias, uma semana para se ter um laudo. Hoje queremos que tudo aconteça rápido”, fala a pesquisadora.

Métodos analíticos verdes

Outra grande preocupação do grupo de pesquisa e que faz um grande diferencial, é adotar os princípios dos chamados “métodos analíticos verdes”. A busca é pela redução do uso de reagentes tóxicos, diminuindo os impactos sobre a natureza e até ao próprio analista, que pode ficar exposto, mesmo utilizando os equipamentos de proteção. “Que a gente use menos reagente químico, gere menos resíduos”, explica Márcia.

Além disso, a equipe trabalha com tecnologias como ultrassom e micro-ondas no processamento de alimentos, buscando alternativas mais sustentáveis. Um exemplo é a pesquisa sobre a parboilização do arroz, que conseguiu reduzir drasticamente o tempo e o uso de água no processo, apontando caminhos para uma produção mais eficiente e ambientalmente responsável.

Pesquisa com alcance global

Embora enraizada em Pelotas, a atuação de Márcia é global. Parcerias com instituições da Europa, Estados Unidos e Ásia permitem cooperações internacionais e o desenvolvimento de metodologias em rede. Atualmente, a professora está na Bélgica, em colaboração com a Universidade de Ghent, onde acompanha o treinamento de uma doutoranda em técnicas avançadas de imageamento químico.

Essas tecnologias permitem, por exemplo, mapear a distribuição de elementos químicos em tecidos biológicos, uma ferramenta promissora para pesquisas em saúde, como estudos sobre os efeitos colaterais da quimioterapia. “A ideia é a gente avaliar alguns elementos químicos que sejam marcadores no organismo para diminuir a dor, durante um tratamento quimioterápico, e melhorar a adesão ao tratamento. Muitas pessoas desistem do tratamento de quimioterapia pelo efeito colateral, uma delas é a do periférica”, comenta a professora.

Reconhecimento internacional e protagonismo feminino

A excelência científica da pesquisadora é reconhecida por prêmios de destaque. Entre eles, o Para Mulheres na Ciência, concedido pela L’Oréal em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências, além da IUPAC 2023 Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering, naquele ano ela foi a única latino-americana incluída entre as principais mulheres da química no mundo.

Para além dos títulos, Márcia Mesko também se destaca pelo engajamento na promoção da equidade de gênero na ciência. Em uma área ainda marcada pela desigualdade, especialmente nas posições de liderança, ela lidera um projeto que incentiva meninas desde o ensino fundamental a se aproximarem da química e desenvolverem habilidades científicas. “Eu venho trabalhando bastante com essa temática também porque acho que é importante a gente falar e ter ações que conscientizem e isso começa lá na escola, na base”, fala.

Márcia vê que há avanços, mas ainda há um caminho importante a ser percorrido para que as mulheres tenham as mesmas chances de se tornarem cientistas bem-sucedidas. “
É um contexto de diversas áreas, mas principalmente nas áreas de ciências exatas, representamos mais ou menos 30% nesses espaços. A gente vê essa proporção de mulheres em relação aos homens aumentando, principalmente nos cursos de graduação. Mas depois na ascendência da carreira isso vai diminuindo e quando são espaços de liderança menos ainda. Eu acho que ainda tem que ter mais políticas de inclusão e de permanência das mulheres nesses espaços. A diversidade qualifica a ciência e melhora os resultados”, argumenta.

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