Dois cliques e o dinheiro está na conta. Consignado sem análise prévia. Desconto em folha. Tudo sem qualquer estresse e com agilidade. Mas e o depois? Vivemos em um momento de preocupação com o aumento do endividamento dos trabalhadores e o cerne disso tudo passa pela falta de educação financeira. A crise econômica, com uma inflação que pressiona a renda das famílias, é a mãe disso tudo. Mas o ponto-chave é o combo de facilitador de crédito, falta de conhecimento e desespero. Somados, esses pontos geram o fator que vem preocupando não só trabalhadores, mas também empresários, e acendendo alertas no mercado de trabalho.
A pesquisa da Associação Gaúcha dos Supermercados (Agas), divulgada nesta quarta-feira (18), indica que 26,7% dos trabalhadores do setor supermercadista possuem endividamentos com desconto em folha. Ou seja, o salário “é mordido” imediatamente, antes de cair na conta dele. E, por isso, muitos acabam pedindo demissão para ir para uma área informal, que não tenha essa dedução direta. Assim, todos perdem: a empresa fica sem o funcionário, o trabalhador perde o emprego e vai para uma área mais precária e fica difícil obter renda para pagar uma conta que só aumenta.
Isso é mais um dos pontos que se resolvem com reeducação financeira, mas também com necessidade de uma legislação e modelos de controle que evitem a propaganda exagerada, a letrinha de rodapé, a proposta sedutora que leva o trabalhador, muitas vezes desorientado e quase sempre desesperado naquele momento, a buscar uma solução sem pensar muito. Depois que o negócio está feito, esquece. E aí é um novo capítulo de uma crise financeira.
Por óbvio, há o elemento da irresponsabilidade e da falta de noção. Não há dúvidas disso. Mas quando um problema dessa magnitude torna-se tão amplo e afeta tantos setores da economia, é preciso repensar os modelos aplicados e compreender que as consequências vêm gerando impactos nas mais variadas frentes e criando precedentes perigosos.