A partir da próxima semana, ouvintes da Rádio Pelotense vão passar a conhecer mais de perto um dos estudos mais importantes da epidemiologia brasileira, através de boletins semanais das Coortes nascimento. O objetivo é aproximar a população da pesquisa que acompanha gerações ao longo da vida e com reconhecimento internacional. A professora Janaína Mota, coordenadora da Coorte de 1982, e a professora Silvia Meirelles, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) falam sobre o trabalho, suas descobertas e os desafios da comunicação científica.
O que são as Coortes de nascimento e qual o objetivo do trabalho?
Janaína Mota. São estudos epidemiológicos que acompanham pessoas desde o nascimento ao longo de diferentes fases da vida. Em Pelotas, esse acompanhamento começou em 1982, com 5.914 nascidos e se repetiu em 1993, 2004, 2015 e agora em 2026, até agora com 500 nascidos, pois a cada edição, todos os nascidos vivos na zona urbana são convidados a participar. O objetivo é entender como fatores do início da vida influenciam a saúde ao longo dos anos. A gente consegue observar como as condições lá do nascimento impactam os desfechos na vida adulta.
Qual a diferença desse tipo de estudo em relação a outros da epidemiologia?
Janaína. O diferencial está no acompanhamento contínuo dos mesmos indivíduos. Enquanto outros estudos analisam recortes pontuais, as Coortes permitem observar trajetórias. No caso de Pelotas, há participantes sendo acompanhados há 44 anos. A gente não olha só um momento, mas toda a vida dessas pessoas.
Quais foram os principais impactos das pesquisas ao longo das décadas?
Janaína. Entre os resultados mais relevantes, estão contribuições para políticas públicas. Eu destaco dois pontos importantes: estudos sobre aleitamento materno, liderados pelo pesquisador César Victora a partir da Coorte de 1982, que influenciaram recomendações internacionais. Outro exemplo é local. A mortalidade infantil era muito grande em 82 e não havia UTI neonatal. Com os dados, houve investimento nessa área e os índices caíram significativamente.
Como funciona o trabalho de pesquisa atualmente?
Janaína. As entrevistas começam ainda nas maternidades, com mães e recém-nascidos, e seguem ao longo dos anos. Hoje, além das visitas domiciliares realizadas no passado, os participantes também passam por avaliações em clínicas com equipamentos modernos. O trabalho envolve uma ampla equipe vinculada ao programa de pós-graduação em Epidemiologia, incluindo alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado. Muitos começam ainda na graduação e seguem carreira na área.
Qual é o papel do jornalismo na divulgação desse estudo?
Silvia Meirelles. A parceria com o curso de Jornalismo busca traduzir conteúdos científicos complexos para o público geral. Eu fui procurar alunos que já tinham sido meus bolsistas em outras situações, porque era um trabalho bem desafiador para mim também, pois a iniciativa inclui produção para redes sociais, que já estão sendo veiculados, e agora também para rádio. O desafio é transformar pesquisas densas em linguagem acessível. A proposta também prevê ações em escolas e maior aproximação com a comunidade. Então a gente buscou referências para pensar como conversar com as pessoas e contar para elas o que é esse trabalho. A gente quer que o pelotense conheça a Coorte e se reconheça nesse trabalho.