Uma pesquisa da Associação Gaúcha de Supermercado (Agas) mostra que o endividamento entre os trabalhadores do setor supermercadista gaúcho é alarmante. Entre 7.683 funcionários de 21 empresas pesquisadas, 2.057 (26,7%) possuem empréstimos consignados com desconto em folha.
A taxa média de juros desses empréstimos é de 4,6% ao mês, mas há casos que ultrapassam os 12% mensais, chegando em situações extremas a mais de 20%. A situação já leva trabalhadores a pedir demissão para fugir do desconto automático em folha, muitas vezes migrando para o mercado informal.
Mais da metade das empresas (57%) relatou casos de pedidos de demissão motivados pelo endividamento, e 90,2% dos empresários consideram a situação “muito preocupante”. Para 95,2% dos respondentes, o problema está crescendo.
Falta educação financeira
Segundo Lindonor Peruzzo Junior, presidente da Agas, o problema se agravou com a ampliação do crédito consignado e do uso do Fundo de Garantia. “O trabalhador recebe o valor do empréstimo, mas fica com parcelas longas que comprometem o orçamento. Muitas vezes, parte desse dinheiro vai para apostas online, reduzindo ainda mais o consumo no varejo”, explica.
O economista Eduardo Tillmann reforça que o cenário é reflexo da falta de educação financeira e da restrição de liquidez dos trabalhadores. “Muitos veem o crédito consignado como extensão do salário e esquecem que esse dinheiro precisa ser pago. O resultado é endividamento recorrente e não apenas flutuações pontuais de consumo”, explica.
Tillmann aponta também consequências diretas para as empresas. “O turnover aumenta, pois trabalhadores pedem demissão para fugir das parcelas. Isso gera custos com treinamento e perda de produtividade. Além disso, quem entra na informalidade perde acesso a benefícios como seguro-desemprego e aposentadoria, e o risco dos empréstimos aumenta, podendo levar a taxas de juros mais altas para quem permanece”, alerta.
Impactos em casa
Com menos dinheiro disponível para o consumo, os trabalhadores acabam reduzindo gastos a itens essenciais como alimentação e medicamentos, impactando diretamente o comércio local e a economia regional.
O cenário traçado pela Agas e confirmado por especialistas aponta que, sem medidas de educação financeira e controle do crédito, o endividamento dos trabalhadores do setor supermercadista tende a crescer, afetando famílias, empresas e o sistema financeiro como um todo.
Pesquisa completa
- Participaram do estudo 21 empresas supermercadistas, com número de funcionários entre 12 e 1,8 mil colaboradores
- Estas empresas perfazem o total de 7683 funcionários diretos
- Destes funcionários, 2057 (ou 26.7%) estão endividados com empréstimos de crédito consignado, com desconto em folha.
- A taxa média mensal de juros informada sobre estes empréstimos é de 4,6%
- Algumas empresas registram colaboradores com taxas de 12% ao mês em seus empréstimos
- 12 das 21 empresas (57%) informam que já registraram colaboradores pedindo demissão em função do seu alto endividamento (em busca de trabalho informal que não desconte em folha).
- 90,2% dos empresários ouvidos informaram que consideram o endividamento de seus colaboradores “Muito preocupante”