A Bacia de Pelotas está no centro das atenções da indústria de petróleo e gás. Considerada uma nova fronteira exploratória no Brasil, a região tem potencial para abrigar grandes reservas de hidrocarbonetos e pode se tornar estratégica para a manutenção da produção nacional nas próximas décadas.
Atualmente, o Brasil produz cerca de quatro milhões de barris de petróleo por dia e ocupa a posição de oitavo maior produtor do mundo. As projeções indicam que a produção brasileira deve seguir em crescimento até cerca de 2031 ou 2032.
No entanto, segundo o diretor executivo de exploração do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Cláudio Nunes, a atividade petrolífera depende da descoberta constante de novas reservas. “Quando você descobre um campo e começa a produzir, o volume de petróleo naquele reservatório vai diminuindo ao longo do tempo. Se o país quiser manter ou aumentar a produção, precisa encontrar novas jazidas que repõem aquilo que está sendo produzido diariamente”, explica.
Potencial semelhante ao pré-sal
A bacia sedimentar, que possui áreas tanto em terra quanto no mar, está no radar da indústria desde a década de 1960. Ao longo das últimas décadas foram realizadas perfurações exploratórias, inclusive offshore, mas até o momento não houve descoberta comercial de petróleo na região. Porém, segundo Nunes, isso não significa que não existam reservas. “A indústria depende muito da evolução tecnológica. Você pode fazer sísmica ou perfurar poços em uma década e não encontrar nada. Anos depois, com novas tecnologias, consegue enxergar melhor o subsolo e fazer descobertas”, explica ele.
Um dos fatores que reacendeu o interesse pela região foi a recente descoberta de petróleo na costa da Namíbia, no continente africano. As duas áreas apresentam formações geológicas semelhantes, resultado da separação dos continentes que deu origem ao oceano Atlântico há milhões de anos. Com base nessas análises, especialistas estimam que a Bacia de Pelotas possa conter até 15 bilhões de barris de petróleo, volume comparável ao de grandes descobertas realizadas no pré-sal brasileiro.
Se a exploração comercial se confirmar, a atividade pode trazer impactos econômicos significativos para o sul do Estado. A produção de petróleo gera royalties, que são repassados à União, estados e municípios próximos às áreas produtoras. De acordo com estimativas do setor, ao menos 12 municípios da região poderiam se beneficiar diretamente da arrecadação desses recursos, além da atração de investimentos, empresas de serviços e geração de empregos.
Próximos passos da exploração
Nos últimos leilões promovidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), empresas do setor arremataram um número recorde de áreas na região. Atualmente, existem entre 40 e 50 blocos exploratórios sob concessão na Bacia de Pelotas. A etapa atual envolve a realização de estudos sísmicos, técnica que utiliza ondas sonoras para mapear as estruturas do subsolo marinho. A partir desses dados, geólogos conseguem identificar possíveis reservatórios de petróleo.
Caso os estudos indiquem potencial econômico, as empresas podem avançar para a perfuração de poços exploratórios, etapa considerada uma das mais complexas e custosas da atividade. “Encontrar petróleo é como procurar uma agulha em um palheiro. Muitas vezes o primeiro poço perfurado é seco, mas mesmo assim fornece informações importantes que ajudam a orientar novas perfurações”, afirma o diretor do IBP.
Licenciamento e transição energética
Outro ponto central para o avanço da exploração é o licenciamento ambiental, considerado um dos principais desafios do setor. O processo envolve estudos detalhados de impacto ambiental e a análise de órgãos reguladores antes da autorização para perfuração. Nunes reconhece a necessidade de rigor ambiental, mas defende maior agilidade nos processos. “Uma sonda de perfuração pode custar até 500 mil dólares por dia. Quando as exigências são cumpridas e a licença não sai, isso gera custos muito altos”, explica.
O diretor também ressalta que a exploração de novas reservas precisa ser discutida em paralelo à transição energética. Segundo ele, reduzir rapidamente a produção de petróleo enquanto a demanda mundial permanece elevada pode trazer riscos para a segurança energética do país. “Se o Brasil não descobrir novas reservas, pode voltar a depender de importações de petróleo no futuro. Isso significaria menos empregos, menos arrecadação e maior dependência externa”, afirma.