A paixão por educar do professor Veiga prossegue há quase 60 anos

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A paixão por educar do professor Veiga prossegue há quase 60 anos

Do quadro-negro na casa da família ao ensino médio próprio, a história do curso que virou referência em Pelotas

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Atualizado domingo,
15 de Março de 2026 às 11:18

A paixão por educar do professor Veiga prossegue há quase 60 anos
Fusão com a Fleming Medicina originou a criação da Escola de ensino médio, no prédio onde surgiu o Veiga. (Foto: Gabriel Leão)

Quem entra hoje na sede da Escola de Ensino Médio Fleming Veiga encontra logo na entrada a secretaria. O que poucos imaginam é que aquele mesmo espaço já foi, quase seis décadas atrás, uma pequena sala de aula improvisada. Ali, em 1967, começou a história do curso preparatório criado pelo professor Luiz Antônio Veiga de Azevedo – conhecido em Pelotas simplesmente como professor Veiga.

A trajetória da instituição, que hoje atende alunos do ensino médio e mantém tradição na preparação para vestibulares, começou de forma simples. Eram duas classes, um quadro negro e a decisão de um jovem universitário de trocar a engenharia pela sala de aula.

Na época, Veiga cursava engenharia na Universidade do Rio Grande (Furg), no município vizinho. Tinha facilidade em cálculo, mas enfrentava dificuldades nas disciplinas de desenho técnico e projeto. A solução era improvisada: ajudava colegas com os cálculos e recebia ajuda nos projetos.

Logo em seguida, aceitou o desafio de ser monitor da turma, na área de cálculos. Foi nesse ambiente que descobriu o gosto por ensinar.

A decisão de abandonar o curso de engenharia e seguir carreira como professor não foi fácil. Segundo relembra o diretor da escola, Marcelo Veiga, o pai comunicou a escolha à família, conhecida pelo perfil rigoroso. “Meu avô e minha avó eram aquelas pessoas muito duras. Meu avô veio aqui onde é a secretaria, que era a casa do meu bisavô, botou um quadro negro e duas classes e disse assim: ‘Agora (na época o professor Veiga fumava) não te dou mais, é tudo contigo’”, relembra Marcelo Veiga.

De aluno a professor

A casa do bisavô da família, em Pelotas, tornou-se o ponto de partida. Ali, em março de 1967, Veiga começou a oferecer aulas particulares de matemática e física. O projeto cresceu a partir do boca a boca entre estudantes que buscavam preparação para vestibulares e concursos públicos.

O dia exato, o diretor da Escola não sabe, o pai não lembrava e ficou aquela incógnita, por essa razão eles adotaram o dia 20 para a celebração de aniversário.

Durante quase duas décadas, o professor trabalhou sozinho. Até 1986, o curso oferecia apenas matemática e física, disciplinas que se tornaram marca registrada do curso Veiga e ajudaram a consolidar a reputação do professor entre estudantes da região.

Com o aumento da procura, o curso passou por sua primeira grande transformação em meados da década de 1980. Em 1986, a estrutura foi ampliada e outras disciplinas foram incorporadas ao preparatório, transformando o projeto inicial em um cursinho completo para vestibulares e concursos.

Naquele período, era comum que estudantes frequentassem o preparatório no turno da tarde. Marcelo Veiga lembra que a maioria dos colégios não ofereciam aulas neste horário e muito menos um reforço para os vestibulares. Quem podia, se preparava nos cursos particulares para o ingresso na universidade.

Ao longo dos anos, o curso do professor Veiga reuniu uma equipe de professores que marcou gerações de estudantes. Docentes vindos de universidades da região participaram da trajetória do pré-vestibular, que se consolidou como um dos mais conhecidos de Pelotas na preparação para carreiras concorridas, especialmente na área da saúde.

Diretor geral, Marcelo Veiga, ainda segue os conselhos do pai. (Foto: Gabriel Leão)

Projeto pedagógico

Mas a marca do professor Veiga não se limitava ao conteúdo acadêmico. Segundo Marcelo Veiga, o fundador defendia uma visão de educação baseada na relação entre professores e alunos. “Ele dizia que o grande segredo da educação é criar um ambiente tão bom que o aluno até estude”, recorda.

A filosofia tinha origem, em parte, na própria experiência escolar do professor. Durante a juventude, ele passou por uma formação rígida em internato. Ao criar seu curso, optou por seguir o caminho oposto: privilegiar vínculos, proximidade e um ambiente acolhedor para os estudantes.

Era comum, por exemplo, que promovesse encontros informais com as turmas fora da sala de aula. Reuniões, jantares ou encontros na própria casa serviam para discutir dificuldades pessoais, aproximar colegas e fortalecer o ambiente coletivo de estudo.

Essa cultura marcou a identidade do curso ao longo das décadas. Ao todo, três gerações de estudantes passaram pelo preparatório. Não é raro que alunos atuais relembrem que pais ou avós também estudaram com o professor Veiga. “Às vezes alguém chega e diz: ‘meu avô foi aluno do teu pai’. Isso mostra o quanto a história da escola atravessou gerações”, conta Marcelo.

O fundador manteve-se à frente do curso por décadas, sempre mais interessado no ensino do que na administração. O lado empreendedor ficou mais evidente nas gerações seguintes da família, que passaram a ajudar na gestão do negócio.

Marcelo Veiga começou a trabalhar no curso em 1997, ainda jovem. Ao longo dos anos, junto com o irmão Mauro, que faleceu no ano passado, assumiu responsabilidades na administração e acompanhou a evolução da instituição.

Um novo tempo

A trajetória sofreu um impacto em 2020, quando o professor Veiga faleceu, aos 73 anos, durante a pandemia de coronavírus. Mesmo assim, o legado educacional permaneceu como referência.

A pandemia, aliás, acabaria provocando uma das maiores mudanças na história do curso. Após décadas dedicadas exclusivamente ao preparatório para vestibulares, a família decidiu ampliar a atuação na área educacional.

Em 2022 nasceu a Escola de Ensino Médio Fleming Veiga, resultado da fusão entre o tradicional Curso Veiga e o Fleming Medicina. O preparatório oriundo de Santa Maria chegou em Pelotas em 2016, como escola de ensino médio. Em 2018, os administradores do empreendimento convidaram para um trabalho conjunto.

Em princípio o convite foi rejeitado. “Porque nós estávamos bem como pré-vestibular. Mas deixamos as portas abertas.” Após a pandemia era necessário mudar.  “Eu digo que são oportunidades que surgem de momentos ruins”, conta o diretor.

A nova instituição passou a oferecer ensino médio completo, mantendo ao mesmo tempo o preparatório para vestibulares em outra unidade da cidade. Hoje, a escola mantém o foco em turmas menores, em ambientes confortáveis e acolhedores, e acompanhamento próximo dos alunos, seguindo a filosofia que marcou a história do fundador.

Amizade e pertencimento

A proposta combina preparação acadêmica com atenção ao desenvolvimento emocional dos estudantes. Para Marcelo Veiga, a evolução do projeto educacional continua ligada às ideias que surgiram em uma pequena sala de aula, em 1967.

“Mais do que aprovações em vestibulares, o que sempre guiou o trabalho do meu pai foi a relação com os alunos. A gente acredita que quando o ambiente é bom, o aprendizado acontece naturalmente.”

A Escola, que começou com 78 alunos, hoje tem 162 e com lista de espera. “Nós compramos a casa do lado e a ideia é crescer, mas no máximo ter duas turmas de cada série.”

O propósito é não perder o foco no ensino que busca valorizar o indivíduo. “Eu acho que esse é o nosso grande diferencial, é tu conheceres o aluno pelo nome, ele tem que sentir que faz parte da Escola”, diz.

Veiga lembra que quando a direção comprou a casa ao lado, com vistas a ampliação do espaço, derrubou um muro unindo os pátios. Os funcionários construíram um gazebo e os alunos opinaram sobre o ajardinamento e ajudaram na decoração do espaço. “Surge uma ideia de pertencimento absurda”, comenta.

Apesar do acolhimento familiar, a direção também estimula a autonomia e a responsabilidade. O diretor diz que algumas mães questionam qual o segredo para a mudança positiva no comportamento do filho. “Eu brinco com elas e digo que não é nada, é só bem-estar e amizade”.

O que remete aos ensinamentos deixados pelo fundador do Veiga. Segundo o diretor, o professor Veiga sabia exatamente qual tua iria melhor ou pior nos desafios. “Ele dizia assim: ‘Essa turma vai passar todo mundo’”. Quando questionado o motivo da certeza, ele dizia que percebia pelos vínculos criados. Numa turma unida, as trocas acontecem naturalmente e um estimula o outro.

E esse estímulo à união prossegue. Na turma do pré-vestibular para medicina, há por exemplo um painel na sala com os títulos: “Posso ajudar em” e “Preciso de ajuda em”, no qual os alunos expressam sem temor seus pontos mais vulneráveis. “Eles vão um dia pra escola e quem é bom numa área ajuda o outro”, relata o diretor. Nesse dia eles ganham lanche, em um clima de encontro com os amigos. Quase 60 anos depois daquele quadro negro instalado na casa da família, a história iniciada pelo professor Veiga continua sendo escrita por uma nova geração de educadores e estudantes.

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