Quem pode tomar banhos longos?

Opinião

Helena Tomaschewski

Helena Tomaschewski

Estudante de Direito

Quem pode tomar banhos longos?

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Sempre que eu vejo esses posts de redes sociais sobre pesquisas que apontam que autocuidado, como tomar um banho mais demorado, meditar, escrever um diário, tem uma pessoa chata que fala: “Mas também, quem tem tempo pra isso?”. E essa pessoa sou eu. É um desserviço e uma ignorância tremenda negar a sociologia em qualquer pesquisa que mostre que certo hábito é qualidade de vida.

A gente tem que se perguntar quem, na nossa sociedade, está tendo tempo para cultivar tal hábito, e eu acredito que isso deveria estar sendo pontuado nessas pesquisas. Como: certa porcentagem da população tem esse hábito ou consegue praticá-lo? E apontar quem é a pessoa que está praticando: é alguém com uma renda acima de um salário mínimo? Acima de cinco? Que cor de pele tem? Qual o nível de escolaridade possui? Quantos carros ela tem na garagem?

Quem trabalha 16 horas por dia debaixo do sol quente, pensa em comprar o que comer, não em um sabonete para o rosto. Quem dirá passar tempo embaixo do chuveiro gastando luz ou gás. Para mim, isso era algo extremamente óbvio de ser incorporado na minha rotina, algo extremamente fácil. Às vezes, a gente não se dá conta de que isso é um privilégio, porque infelizmente a maioria das pessoas no Brasil não tem o tempo e a oportunidade de fazer isso na própria rotina: se cuidar, se tocar, se apreciar.

Agora que já sabemos que isso faz bem, o que vamos fazer como humanos para que se torne o mais próximo da realidade de todos? Bom, já sabemos algumas informações lógicas: alimentação nutritiva faz bem, exercícios físicos fazem bem — e, quando eu digo exercício, eu não me refiro a carregar uma carroça debaixo do sol quente. Ter tempo com a família faz bem para saúde mental, com seus filhos, com seu namorado.

Recentemente vi uma pesquisa que dizia o quanto faz bem para uma mulher ter amizades femininas na vida para o resto da sua vida. Que essa mulher, com amizades femininas, vive mais. Isso é lindo, mas quem é essa mulher? Quem consegue cultivar amizades femininas? São mulheres que têm independência do marido, que não estão presas a um relacionamento onde não podem ter outras amizades que não as do marido.

Às vezes, pode parecer um amargor sempre questionarmos, sermos a geração “mimimi”, quando, na verdade, temos uma evolução na ciência, descobrindo coisas novas sobre a saúde mental, sobre a saúde humana. Mas, para a ciência servir como evolução, ela tem de ser social e utilizada para chegar em grande escala na população.

Não se é produtivo o conhecimento estar solto no mundo, não sendo utilizado para se tornar um hábito da maior parte da população. Enquanto a psicologia ignorar o fator social, seu propósito falha, servindo apenas para uma minoria.

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