O Parque Nacional do Albardão também é problema seu

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

O Parque Nacional do Albardão também é problema seu

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A criação do Parque Nacional do Albardão, o maior do Brasil, na região costeira de Santa Vitória do Palmar, deixando de lado as polêmicas e os debates feitos até aqui, lança um desafio sobre algo em que ainda patinamos: a transformação do turismo em um produto sólido o suficiente para gerar emprego e renda e garantir retorno econômico robusto aos cofres públicos. O que para muitos pode parecer um limão, em outras partes do Brasil virou doce e agradável limonada.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima aposta justamente na valorização do potencial de desenvolvimento de atividades turísticas sustentáveis na região a partir dessa nova unidade de conservação. Com paisagens naturais únicas — já chamadas de Lençóis Rio-Grandenses — e fauna característica, a região pode, a partir de agora, ser explorada de diversas formas, através de trilhas, cicloturismo, trekking, maratonas e uma rede hoteleira sustentável.

Sobre o sucesso dessas iniciativas em outros locais, em 2024 o Parque Nacional da Tijuca (RJ), o Parque Nacional do Iguaçu (PR) e o Parque Nacional de Jericoacoara (CE), unidades de conservação já consolidadas, apareceram entre os mais visitados do país, de acordo com dados do Ministério do Turismo e do ICMBio. Como reforço para a ideia, pesquisa feita pelo Instituto Semeia aponta que um milhão de empregos podem ser gerados nos parques espalhados pelo Brasil. Há potencial de contribuição estimado em R$ 44 bilhões à economia nacional — para cada R$ 1 bilhão, 22 mil empregos podem ser criados.

E aqui chegamos ao desafio do Albardão, enquanto vetor de desenvolvimento: criar incentivos para que as pessoas visitem o local. É um ciclo. Com mais gente, maior será o gasto dos ecoturistas, o que levará à criação de novos postos de trabalho.

Voltamos então ao ponto fundamental do debate. Sabemos fazer turismo na Zona Sul? O tema é alvo de discussões constantes entre especialistas, gestores e empresários do setor. Temos dezenas de ações isoladas de sucesso, mas, quando se conversa com quem investe, o problema comum sempre aparece. Falta integração e uma política mais sólida, que dê identidade própria ao que apenas nós, do pampa gaúcho no extremo sul do país, temos em recursos naturais e produtos exclusivos — sejam eles materiais ou imateriais — dentro de um conjunto turístico.

Talvez o pelotense, o lourenciano, o canguçuense pouco se importem com o Albardão e reflitam:

— Não tenho interesse, não é na minha cidade.

É um pensamento torto. Os reflexos da criação do maior parque marinho do país ultrapassam as fronteiras de Santa Vitória do Palmar. Devemos ter compromisso ambiental coletivo. O desenvolvimento aliado à proteção da fauna e da flora é macro, jamais restrito a A ou B. Assim como o turismo. Se o ecoturismo se consolida no Albardão, os visitantes chegarão pelo Aeroporto Internacional de Pelotas, irão se hospedar em Rio Grande e também visitar o Chuí, a última (ou primeira) cidade do Brasil. Assim como os danos ambientais causados pelo homem se refletem muito além dos limites locais. Todos podem ganhar, assim como todos podem perder se permanecermos inertes ao futuro que nos bate à porta.

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