Promove pede cassação de Amaral e expõe racha no PP de Pelotas

Opinião

Pedro Petrucci

Pedro Petrucci

Jornalista

Promove pede cassação de Amaral e expõe racha no PP de Pelotas

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O pedido de cassação de Rafael Amaral, apresentado por Michel Promove na Comissão de Ética da Câmara de Pelotas, levou para dentro de um processo disciplinar uma disputa política que já vinha se manifestando no plenário e nos bastidores do PP. A iniciativa expõe de forma explícita o conflito interno do partido e coloca o tema no centro da agenda da Câmara. A denúncia surgiu depois da sessão marcada pela presença de participantes do programa Vida Ativa, que lotaram o plenário para acompanhar a discussão sobre o futuro do projeto. Promove sustenta que Amaral teria estimulado a população contra colegas e parlamentares, o que teria contribuído para o tumulto e para a interrupção dos trabalhos.

Amaral afirmou que foi pego de surpresa pela medida e relacionou a denúncia à sua atuação em defesa do programa. “A denúncia apresentada pelo vereador Michel Escalante surge logo após minha defesa da continuidade do programa Vida Ativa, que atende idosos da nossa cidade. Transformar uma divergência política em processo disciplinar é uma tentativa de punir um posicionamento legítimo e de cercear o exercício do mandato. O que está acontecendo é uma verdadeira violência política”, afirmou.

O episódio se conecta a um quadro político que já vinha se desenhando dentro do PP de Pelotas. Nas votações da Câmara, os vereadores do partido passaram a atuar de forma pouco coordenada. Cada um construiu sua própria relação com o governo municipal e com as pautas em discussão. Amaral se aproximou mais do Executivo e mantém influência na Secretaria de Trânsito, comandada por Cláudio Montanelli. Arthur Hallal também buscou diálogo com o governo em momentos anteriores, inclusive em uma tentativa de composição envolvendo a Secretaria de Saúde. Já Promove perdeu, em novembro, o espaço político que mantinha na Secretaria de Desenvolvimento Rural depois de atritos com o Executivo.

Na mesma sessão, Promove anunciou que pretende apresentar representação contra o vereador Jurandir Silva (PSOL), por declarações nas redes sociais relacionadas ao fechamento das portas da Câmara durante o protesto ligado ao Vida Ativa. A Comissão de Ética volta a se reunir em 19 de março para tratar do caso. Na pauta também deve aparecer a representação de Cristiano Silva (UB) contra Ivan Duarte (PT) em razão da fala sobre vereadores e drogas na sessão que suspendeu a vereadora Fernanda Miranda (PSOL). Ivan posteriormente afirmou que fazia referência ao uso de medicamentos, mas a declaração acabou gerando reação entre colegas.

A justificativa do vereador

Sob pressão da população, que passou a questionar nas redes sociais e protestou na Câmara sobre o parecer desfavorável ao projeto Vida Ativa na CCJ da Câmara, o vereador Cristiano Silva tentou explicar a decisão. Fez isso no plenário e depois em vídeo, em um esforço para sustentar que o parecer contrário foi técnico e desvinculado de disputa política. A linha da justificativa é conhecida. Cristiano afirma que o Executivo precisa apresentar planejamento, transparência e explicações mais detalhadas sobre as contratações previstas. Também diz que não é contra o Vida Ativa. Em tese, soa equilibrado. O problema começa quando se olha para o efeito concreto da decisão que ele escolheu tomar.

Dentro da CCJ, o relator não está limitado a duas opções, como se fosse obrigado a aprovar tudo ou barrar tudo. O regimento oferece caminhos intermediários. É possível pedir mais informações, sugerir diligências, apontar ajustes, apresentar ressalvas e permitir que o debate siga para o plenário, onde os 21 vereadores podem discutir o mérito e construir emendas. Foi exatamente aí que a justificativa perdeu força. Se o entendimento era de que faltavam informações, havia ferramentas para pedir informações. Se a preocupação era corrigir falhas do texto, havia caminho para apontar ajustes. Se a intenção fosse preservar o programa e aperfeiçoar o projeto, o procedimento mais coerente seria permitir continuidade com ressalvas.

Mas o verador escolheu outra coisa. Escolheu o parecer contrário, que não melhora o texto, não aperfeiçoa a proposta e não cria ponte de negociação. O parecer contrário interrompe a tramitação. E isso muda bastante a leitura política do gesto. É por isso que a explicação dada depois não resolve o ponto central. Para quem acompanha de fora, esse detalhe importa. O morador de Pelotas não é obrigado a conhecer o rito da CCJ, nem a diferença entre diligência, ressalva e parecer contrário. Mas quando o vereador tenta vender a decisão como simples zelo técnico, é preciso traduzir o que aconteceu de fato. E o que aconteceu foi uma escolha.

Desenho do PL local

Uma publicação de Marciano Perondi nas redes sociais acrescentou um novo elemento à organização do PL em Pelotas para 2026. Ao relatar conversas com empresários que teriam recebido com estranheza o convite feito por Marcelo Bagé para o lançamento de sua pré-candidatura a deputado estadual, Perondi leva para o ambiente público um desconforto que, até aqui, aparecia mais no campo das articulações partidárias. O fato ocorre no momento em que diferentes lideranças do partido começam a estruturar seus projetos eleitorais, com Perondi colocado como pré-candidato a deputado federal e Bagé em movimento para disputar vaga na Assembleia Legislativa. O quadro também mostra que o apoio comum a Ubiratan Sanderson ao Senado não elimina acomodações distintas dentro do partido no plano local. Perondi atua em parceria com Júnior Fox, enquanto Bagé constrói sua dobradinha com o deputado federal Marcelo Moura, de Santa Cruz do Sul.

Mudança de rota

Enquanto o MDB ainda não definiu se terá candidatura própria à Presidência ou se caminhará ao lado do PL em 2026, uma de suas principais lideranças já se move no tabuleiro. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, anunciou que disputará o Senado por São Paulo, deixando sua base política em MS. Nos bastidores, a leitura é de que a candidatura faz parte de uma articulação do presidente Lula para o estado, com Fernando Haddad indicado para a disputa ao governo paulista. Há ainda a expectativa de que Tebet se filie ao PSB. Se o movimento se confirmar, fica a dúvida sobre o futuro de outros ministros do MDB no governo, como Renan Filho e Jader Filho.

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