O que mudou 15 anos depois da maior enchente em São Lourenço?

Tragédia climática

O que mudou 15 anos depois da maior enchente em São Lourenço?

Após ter 70% do território afetado pela inundação, hoje cidade é referência em ações para mitigação dos efeitos das mudanças climáticas

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O que mudou 15 anos depois da maior enchente em São Lourenço?
Cerca de 20 mil pessoas foram atingidas pela enchente de 2011 e oito morreram. (Foto: Paulo Rossi)

Os moradores de São Lourenço do Sul foram acordados, durante a madrugada do dia 10 para o dia 11 de março de 2011, com carros de som da prefeitura alertando para a possibilidade de que as águas do arroio São Lourenço invadissem ruas e casas. O aviso veio junto ao registro de mais de 600 milímetros de chuva em cerca de 10 horas. O resultado foi a maior tragédia climática no município em 70 anos, equiparada apenas anos depois com as cheias de 2024.

O transbordamento do arroio aconteceu por volta das 4h da madrugada do dia 11. O nível da água que invadiu as ruas chegou a três metros em quase 70% da zona urbana, 20 mil pessoas ficaram desabrigadas e oito mortes foram contabilizadas em decorrência da enxurrada. Desde então, a cidade vem unindo esforços com as universidades e empresas privadas para construir ações que possibilitem a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

Segundo os registros, o evento climático extremo foi causado por um grande volume de chuvas que atingiu a região, principalmente na bacia hidrográfica do rio Camaquã. Essas chuvas foram intensas e persistentes, o que provocou o aumento do nível do rio Camaquã e de seus afluentes, como o Arroio Cadena e o Arroio da Velha.

A economia do município foi afetada. O atual deputado estadual e prefeito à época, Zé Nunes (PT), chegou a estimar um prejuízo superior a R$ 100 milhões.

Relatos

O temporal também causou aumento do nível dos arroios do Pinto e Viúva Tereza, ocasionando transbordamento sobre a BR-116, nos quilômetros 468 e 471, entre os municípios de São Lourenço e Turuçu. Por conta dos danos, a rodovia ficou bloqueada.

A Defesa Civil montou uma estrutura médica com ambulâncias em um campo de futebol na área central da cidade, para onde foram levadas as pessoas resgatadas. Os prejuízos causados pela enchente foram significativos, e os moradores da cidade tiveram que lidar com problemas como a falta de acesso a água e energia elétrica, além de doenças causadas pela água contaminada.

Renato Coelho, 66, relembra a rapidez com que a água tomou conta da sua casa. Segundo ele, quando notou a água entrando pelos ralos, foi até os fundos da residência e uma onda invadiu todos os cômodos. “Eu tinha muitos cachorros, só deu tempo de colocar eles em cima dos móveis, a gente nem achava que a água ia chegar tão alto, e sair. Perdemos tudo”, conta.

Sem ter o que fazer, perto da força da correnteza e a rapidez com que invadia sua casa, Renato saiu para a rua e viu que duas vizinhas precisavam de ajuda, mas infelizmente não houve tempo para salvá-las. Ambas faleceram. “A água me levou, me agarrei no primeiro poste que vi. Foi um terror muito grande. Eu acho que fiquei umas quatro horas ou mais, até ser resgatado por uns barcos”, descreve. A água chegou até 1,7 metro de altura na casa de Renato e os pertences foram perdidos, além do carro, mas ele conseguiu salvar todos os seus cachorros da tragédia.

O que mudou?

Um levantamento realizado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em 2024, por pesquisadores de diferentes áreas, constata que, historicamente, São Lourenço do Sul destaca-se por ser um município de diversas ocorrências de eventos climáticos extremos e com decretos de emergência sendo emitidos, praticamente todos os anos desde 1989, por desastres distintos.

O atual prefeito Zelmute Marten (PT) relembra que também foi atingido pela enchente, ocasião em que, por conta das chuvas, sua família ficou em risco. “Naquele dia 10 de março, fui para a Lomba para começar a fazer contatos com o governo do Estado e com o governo federal, junto ao ex-prefeito Zé Nunes e, às 6h da manhã, tocou meu telefone porque a água estava entrando na minha casa, em torno de um metro e quarenta. Minha esposa estava sozinha com os meus filhos nos braços, que tinham três meses e eu tive que colocar o portão abaixo para poder tirar eles dali. Foi um momento muito traumático”, conta.

“Desde esse episódio da enchente, classifico os moradores de São Lourenço como refugiados climáticos. Tenho relatos de moradores que, com a chegada do outono e da época de chuvas na região, entram em depressão, por conta dos temores de novas enchentes”, afirma Zelmute.

Com relação à adaptação ao novo momento climático e prevenção de novos desastres, o prefeito afirma que a primeira ação de 2025 foi atualizar o estudo do Serviço Geológico do Brasil, que demonstra que 80% da área urbana de São Lourenço do Sul está em zona de risco. “Colocamos outros equipamentos, como pluviômetros, que colaboram hoje conosco para avaliação e a previsão, a prevenção dos eventos climáticos extremos. Assinamos essa parceria com o CIEX da Furg, e hoje nós temos boletins meteorológicos de quatro em quatro dias. Quando ocorre um evento climático extremo, este boletim meteorológico vem de hora em hora”.

A cidade tem ganhado protagonismo nas questões relacionadas à proteção ao meio ambiente, desenvolvimento de ações direcionadas à descarbonização e foco no fortalecimento de São Lourenço do Sul enquanto um município climatologicamente resiliente. Essas ideias são abraçadas pela população, muito atribuído à tomada de consciência e a percepção da comunidade em geral da necessidade de ações concretas que evitem mais perdas frente aos desastres climáticos cada vez mais frequentes.

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