A artesã Denise Aldrighi (@fra.mel_ no Instagram) encontrou na moda sustentável e na recuperação de móveis uma forma de reconstruir a própria trajetória e inspirar outras mulheres. ela contou como começou a transformar roupas e objetos descartados em novas peças, falou sobre o processo criativo e apresentou o projeto de abrir um espaço de convivência e aprendizado voltado principalmente para mulheres com cinquenta anos ou mais.
Como surgiu a tua relação com a transformação de roupas e com a moda sustentável?
Eu faço isso desde os 15 anos. Sempre amei moda e tudo que fosse diferente eu gostava de mudar. Depois parei por um período bem longo, mas de uns anos pra cá eu me atirei de novo. É aquela sensação de olhar para alguma coisa e perceber que dá para modificar.
O que te chama a atenção quando tu enxerga uma peça que poderia ir para o lixo?
É justamente esse olhar para a peça que muitas vezes as pessoas colocam na frente de casa como lixo. Eu vejo que dá para resgatar, que dá para fazer alguma coisa. Tudo depende do olhar. Foi assim que a moda sustentável acabou entrando na minha vida, e é algo que eu amo.
Como funciona o teu processo criativo quando transformas uma roupa?
É muito no olhar. Tu pega uma calça jeans, por exemplo, e pode misturar com vários tecidos. Muitas pessoas dizem que eu deveria colocar as ideias no papel, mas eu não consigo. Eu olho e começo a criar. São pedacinhos, como se fossem cicatrizes que tu vai colando. No final dá certo e surgem peças lindas.
Como é a tua relação com o trabalho manual e com a máquina de costura?
A máquina é tudo. Quando eu sento para trabalhar, é como se entrasse em um mundo paralelo. Ali eu consigo criar, aplicar crochê, fazer o próprio crochê e experimentar várias ideias.
Por que tu destacas que cada peça é única?
Porque eu sou muito assim. Às vezes alguém pega uma peça minha e ela é única. Ninguém mais vai ter igual, é só daquela pessoa. Isso faz muito bem, principalmente quando tu vê o olhar da cliente e percebe que era exatamente aquilo que ela queria.
Tu também falas muito sobre o lado humano desse trabalho. De onde vem essa vontade de compartilhar com outras mulheres?
Eu sempre tive essa vontade de passar adiante aquilo que eu tenho. Mas, nos últimos anos, isso acabou aflorando ainda mais. Muitas pessoas te procuram até por um abraço. No mundo de hoje, que está tudo tão raso, isso chama a atenção. Hoje mesmo uma pessoa mais velha me pediu um abraço e disse que se sente bem comigo. Então eu penso: por que não abraçar? Por que não criar um espaço para isso?
Como surgiu a ideia de criar um espaço de encontro para mulheres?
Esse espaço é um sonho. Como a gente passou por uma fase muito difícil, depois de dois anos eu comecei a perceber que existem muitas mulheres que precisam de ajuda, principalmente as de 50 anos ou mais. Muitas vezes elas não encontram esse apoio porque ninguém tem tempo ou consegue parar para dar atenção.
De onde vem o material que tu utilizas nos trabalhos?
Algumas coisas chegam por doação. Hoje mesmo uma menina apareceu lá e disse que tinha uma pilha de calças jeans e perguntou se eu aceitava. Claro que sim. Eu acho que a gente precisa ter mais consciência sobre tudo que vai para o lixo. Muitas coisas ainda podem ser reaproveitadas.