Referência no Rio Grande do Sul, o Centro de Atendimento ao Autista Doutor Danilo Rolim de Moura, em Pelotas, completa 12 anos consolidado como espaço público de atendimento educacional especializado a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Vinculado à Secretaria Municipal de Educação e com parceria permanente da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o Centro atende atualmente alunos de diferentes idades e registra uma demanda superior a 570 inscritos. Em média são feitos 890 atendimentos semanais, 3.540 mensais e o ano de 2025 foi encerrado com 34.320 atendimentos.
Inaugurado em 2 de abril de 2014, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o Centro é resultado direto da mobilização de mães que, anos antes, buscavam alternativas para garantir atendimento adequado aos filhos. Em 2009, o grupo fundou a Associação de Amigos, Mães e Pais de Autistas e Relacionados com Enfoque Holístico (Amparho), formalizando a luta por um espaço público especializado.
Naquele período, segundo a neuropsicopedagoga e arteterapeuta Eliane Bittencourt, havia pouca informação sobre o autismo e escassez de serviços gratuitos. “Os atendimentos eram limitados e, muitas vezes, restritos à saúde. Quem podia, recorria a clínicas particulares. Não havia um suporte estruturado dentro da educação”, recorda. Mãe do Márcio, um jovem autista de 21 anos, ela ingressou na Amparho pouco após o diagnóstico do filho e acompanhou todas as etapas de implantação do Centro.
Em 2012, a associação conquistou recursos do Orçamento Participativo para estruturar a futura sede. O valor, destinado à compra de equipamentos, mobiliário e capacitação profissional, não podia ser utilizado para aquisição ou aluguel de imóvel. “Conversamos com todos eles, ouvíamos que apoiavam a causa. Do Eduardo Leite, na época candidato a prefeito pelo PSDB, a gente ouviu que se fosse eleito eu faria o Centro. Foi uma esperança pra nós”, conta Eliane. Eleito, em 2013, começaram as conversas para a construção do projeto com a Amparho, que cobrou a promessa.

(Foto: Divulgação)
A proposta foi efetiva em 2014, com o apoio também da Universidade Federal de Pelotas. Na época, a entidade tinha poucos autistas cadastrados, eram somente os filhos das mães da Amparho, alguns do Cerenepe e outros da Apae. “E o meu filho já começou a ser atendido. Desde o início o Márcio já começou a frequentar lá. Ele tinha na época 9 anos e hoje, com 21 anos, ele continua sendo atendido no Centro. Pra nós foi uma luz no fim do túnel. Porque nós não tínhamos nada”, fala Eliane.
A diretora do Centro, Débora Luiza Schuck Jack, destaca que a proposta sempre foi diferenciar-se de um serviço exclusivamente clínico. “Nosso foco é educacional. Entendemos que a permanência e o sucesso do aluno com autismo na escola dependem de estratégias pedagógicas adequadas, recursos acessíveis e formação continuada dos profissionais”, afirma.
A parceria com a UFPel, estabelecida desde o início, garantiu respaldo técnico e científico. O modelo de intervenção precoce adotado pelo Centro foi inspirado em experiências portuguesas e adaptado à realidade local. A equipe multidisciplinar passa por atualização constante e mantém diálogo com pesquisas acadêmicas na área da educação inclusiva e da primeira infância.
Diferentes frentes
O atendimento contempla diferentes frentes: intervenção precoce, atendimento educacional especializado (realizado no contraturno escolar), psicopedagogia, arteterapia, musicoterapia, ludoterapia, psicomotricidade, educação física, tecnologia assistiva e acompanhamento psicológico às famílias. A intervenção é considerada a porta de entrada, especialmente para crianças pequenas, com foco no desenvolvimento da comunicação, do brincar e das interações sociais.
O Centro atende preferencialmente estudantes da rede municipal de ensino. Não há idade mínima ou máxima para ingresso ou permanência; o critério é a necessidade de suporte. Há crianças em idade pré-escolar, adolescentes no ensino fundamental e médio e adultos que já frequentam cursos técnicos ou a universidade e seguem recebendo acompanhamento. “Enquanto houver necessidade, o suporte permanece”, resume Débora.
O Transtorno do Espectro Autista é classificado em três níveis de suporte. O nível 1 exige apoio mais leve e maior autonomia; o nível 2 demanda acompanhamento frequente; e o nível 3 requer suporte intensivo, especialmente nas áreas de comunicação e comportamento. “Precisamos estar preparados para todos os perfis. O comportamento ainda é um dos maiores desafios nos diferentes contextos”, explica a diretora.
Escuta das famílias

(Foto: Divulgação)
A escuta das famílias é parte central do trabalho. Antes do início de cada ano letivo, a equipe realiza entrevistas para atualizar informações sobre mudanças no desenvolvimento dos alunos. “Alguns evoluem significativamente nas férias; outros apresentam regressões. O planejamento precisa ser revisto a cada ciclo”, afirma Débora. A construção de vínculo e confiança entre família e profissionais é apontada como condição essencial para a eficácia do atendimento.
Em fevereiro deste ano, um temporal provocou danos no andar superior do prédio, adiando o reinício das atividades presenciais. O atendimento foi reorganizado provisoriamente nas salas do térreo, sem interrupção do acompanhamento às famílias.
A direção avalia que os reparos avançaram mais rápido do que o previsto. “ Como fomos atingidos pelo ciclone iniciamos as entrevistas de atualização de dados com as famílias nesta semana. Na medida que passam pela entrevista já iniciam os atendimentos. Na próxima semana iniciamos para todos que já compareceram às entrevistas”, comenta a diretora.
Ao longo dos anos, o Centro estruturou uma rede de parcerias que contribui para a qualificação contínua da equipe e para a ampliação dos recursos disponíveis. Instituições de ensino superior colaboram com formação e palestras, muitas vezes de forma voluntária. Emendas parlamentares viabilizaram a aquisição de equipamentos de tecnologia assistiva e a implantação de ambientes adaptados, como sala multissensorial, que será inaugurada nos próximos dias.
Existe alternativa
Para a diretora Débora, o crescimento da demanda está relacionado a diagnósticos mais precisos e à ampliação do debate público sobre o autismo. A ex-presidente da Amparho, Eliane Bittencourt, comenta que hoje algumas famílias lamentam a fila de espera para ingressar no Centro, que atende preferencialmente a rede municipal. “Não tínhamos nenhuma lista de espera, recebíamos o diagnóstico e aí? Ou íamos pra questão particular ou esperava que um dia o sonho do Centro se realizasse, como se realizou. Hoje a gente tem demora, mas existe um Centro de Atendimento. Que é educacional, não é um centro de saúde como a gente sempre lutou e continua lutando, mas é o local que nos deu todo o amparo, para que eles tivessem sucesso na escola”, fala Eliane.
Do ponto de vista institucional, a meta permanece a mesma desde a fundação: eliminar ou atenuar barreiras que dificultam a participação plena das pessoas com TEA nos contextos escolar e social, promovendo autonomia, desenvolvimento de potencialidades e qualidade de vida.
Ao completar 12 anos, o Centro de Atendimento ao Autista Doutor Danilo Rolim de Moura consolida-se como política pública de educação inclusiva em Pelotas, resultado da articulação entre famílias, poder público e universidade — uma trajetória que começou com a mobilização de mães e hoje impacta centenas de estudantes e suas redes de apoio.
