O primeiro minuto do dia 4 de março marcará o fim da cobrança de pedágio nas cinco praças que fazem parte dos 457,3 quilômetros do Polo Rodoviário de Pelotas. No último final de semana de concessão da Ecovias Sul, a circulação será mantida, com atuação plena dos trabalhadores, e começam a ser encaminhadas as adaptações operacionais para permitir o tráfego livre na próxima quarta-feira. Com os trabalhos encerrados, inicia-se um capítulo de incertezas para os colaboradores.
O fim da cobrança impacta 14 municípios em cerca de R$ 30 milhões anuais de perda de arrecadação. O valor total corresponde ao repasse do Imposto Sobre Serviços (ISS), que era pago diretamente às prefeituras, para investimentos em áreas como saúde, educação, assistência social e infraestrutura.
Estes pontos são amplamente discutidos entre lideranças regionais desde que foi confirmado o fim da concessão, seus pontos positivos e negativos para o desenvolvimento da Zona Sul. No entanto, o ciclo também é encerrado para 190 trabalhadores da área operacional do Polo Pelotas. Este número poderá ser ainda maior com o final das tratativas de transferência e transição de carreiras.
A Ecovias Sul afirma que, desde o início do processo de desmobilização, em março de 2024, os trabalhadores foram orientados sobre cada etapa do encerramento contratual. Como parte do compromisso, foi estruturado um conjunto de ações voltadas ao suporte profissional dos colaboradores, oferecendo orientação e apoio para a transição de carreira e eventual recolocação no mercado de trabalho. O setor administrativo seguirá trabalhando até o final de março.
“Os colaboradores são nosso maior legado. Construímos uma história pautada no respeito e na valorização”, afirma a coordenadora de Recursos Humanos, Michelli Barreto. Ao longo de quase três décadas de concessão, 1.532 colaboradores diretos integraram a Ecovias Sul.
Ainda assim, a incerteza sobre o futuro ronda o pensamento destes trabalhadores que, por anos, dedicaram-se a todas as esferas que envolvem a administração logística de uma rodovia.
Desde o começo
Um dos trabalhadores que atuam há mais tempo na empresa, Paulo Renato Rodrigues, relembra todos os setores pelos quais passou, sempre com compromisso, responsabilidade e respeito. “Com o encerramento das atividades, chega ao fim um ciclo muito importante da minha vida profissional. Levo comigo o orgulho da trajetória construída, dos desafios superados e do trabalho honesto realizado ao longo de todos esses anos”, diz.
A história de Paulo com a Ecovias teve início em 2000, quando atuou como ajudante de topografia, em trabalhos técnicos e operacionais que davam suporte às atividades da concessionária. Em 2005, passou à função de porteiro da Sede Administrativa. A partir de 2010, começou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais na Sede Administrativa, onde permanecerá até o fim da concessão.
Além de Paulo, sua filha também construiu sua trajetória profissional dentro da empresa e, com o término do contrato, ambos ficarão desempregados, afetando diretamente a renda da família. Sobre o que espera para o futuro, o trabalhador não esconde o receio pelo momento incerto. “Após tantos anos de dedicação e aos 60 anos de idade, esse momento traz preocupação e incertezas, mas sigo com a consciência tranquila, a dignidade preservada e a esperança de que novos caminhos ainda possam surgir”, afirma.
Primeira carteira assinada
Há 13 anos como técnico em engenharia e atuando na gestão de obras e na manutenção predial, Peterson Hoewell relembra as reformas que impactaram na melhoria e conservação de estruturas da Ecovias, e que participou. Além disso, após quatro anos trabalhando na empresa como Pessoa Jurídica, sendo que havia sido chamado inicialmente apenas para um contrato de seis meses, teve sua carteira de trabalho assinada pela primeira vez, aos 61 anos. “Foi emocionante demais. Representou muito. Foi a empresa que me deu oportunidade numa fase da vida em que muita gente já não acredita mais em recomeços”, diz.
Sobre o que sentiu ao saber do fim do contrato, Peterson diz que sabia da data, mas ainda esperava que haveria uma prorrogação até que houvesse uma nova concessão. “É um momento de incerteza, claro, mas sigo com gratidão pela trajetória e confiante de que novas oportunidades vão surgir. Torço muito para que a região encontre caminhos de desenvolvimento”, projeta o técnico em engenharia.
Gratidão que fica
Estabilidade, dignidade e cuidado, é assim que Jovana Simão Duarte, atendente do Serviço de Atendimento ao Usuário (SAU), define o que o trabalho na Ecovias Sul representou em sua vida. Apesar disso, também destaca a apreensão que sente por colegas que também serão impactados com o fim da concessão, e com os números de acidentes que acontecem na região. “O apoio do resgate sempre foi importante, muitas vidas foram salvas por equipes treinadas. É uma lacuna forte na rodovia. Eles têm técnicas e material para salvar vidas, é uma equipe completa, todos focados num só objetivo de chegar às ocorrências com rapidez, agilidade e profissionalismo”, destaca.
Jovana também mensura o impacto que o emprego teve na vida de seus familiares. “Através dos benefícios oferecidos pela empresa, meu filho realizou um transplante de córnea e meu esposo passou por uma cirurgia cardiovascular. Por isso, a gratidão que sinto é imensa. Foi mais do que um emprego, foi um amparo para minha família”, diz.
Sobre o fim e o que espera para seu futuro, a atendente do SAU há cinco anos afirma que sentiu tristeza e insegurança. “É impossível não se abalar. No momento, estou buscando manter a calma e confiar que novas portas irão se abrir. Ainda não tenho um encaminhamento definido, mas confiante de que minha experiência e dedicação vão me ajudar a seguir em frente”, projeta Jovana.
Logística do fim
As cinco praças localizadas nos municípios de Rio Grande, Canguçu, Capão do Leão, Cristal e Pelotas passarão por adaptações operacionais para permitir o tráfego livre. A circulação de veículos será direcionada para as pistas onde hoje funcionam as vias automáticas, em ambos os sentidos da rodovia. O tráfego de veículos será canalizado para as extremidades das praças através de sinalização com cones e placas.
