O último dia de programação da 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas contará com a apresentação de tipos especiais de arroz desenvolvidos pela Embrapa. Entre os destaques está o lançamento de uma nova cultivar do grão, a BRS A707, um arroz integral de coloração preta e rico em compostos nutritivos. Em meio à crise enfrentada pelo setor orizícola, a nova cultivar surge como uma alternativa para a diversificação do cultivo.
A apresentação dos tipos especiais de arroz ocorre às 11h45 desta quinta-feira (26), no estande da Embrapa, seguida de degustação dos produtos. O lançamento oficial da nova cultivar está previsto para as 14h15 e será conduzido pelo pesquisador José Manoel Colombari, da Embrapa Arroz e Feijão, sediada em Goiânia.
Nova cultivar
Chamada tecnicamente de BRS A707, a nova cultivar de arroz preto é um grão integral, ou seja, não passa pelo processo de polimento utilizado no arroz agulhinha – o arroz branco tradicional. Dessa forma, mantém a camada externa do grão, responsável pela coloração escura. “No caso do arroz preto, ele precisa ser consumido obrigatoriamente na forma integral, porque o polimento removeria toda essa cor”, explica Colombari.
Segundo o pesquisador, a tonalidade escura é resultado da presença de antocianinas – compostos fenólicos encontrados também no açaí e na uva. A camada externa do grão, chamada de pericarpo, concentra compostos bioativos e aminoácidos, responsáveis por parte dos benefícios nutricionais.
Esse tipo de arroz apresenta propriedades antioxidantes e pode auxiliar no controle da glicemia e da pressão arterial. “O consumo de 100 gramas desse arroz equivale, em quantidade de compostos fenólicos, a uma taça de vinho. E sabemos o quanto o vinho e o açaí são associados a benefícios para a saúde justamente pela presença desses compostos”, afirma o pesquisador.
O preparo é semelhante ao do arroz integral. O grão mantém a coloração escura após o cozimento, tem textura firme e fica solto no prato. O tempo de preparo, no entanto, é maior. “A proporção de água costuma ser de três ou quatro partes para uma de arroz, e o tempo de cozimento gira em torno de 35 minutos”, explica.
Demanda internacional
De acordo com Colombari, a nova cultivar busca atender à crescente demanda internacional por alimentos funcionais. Até então, grande parte do arroz preto consumido no Brasil era importada. “Não tínhamos genética com alto potencial produtivo para produzir esses tipos especiais no país”, afirma.
Embora já existam duas cultivares de arroz preto lançadas por outras instituições, esta é a primeira desenvolvida pela Embrapa. Segundo o pesquisador, ela apresenta potencial produtivo significativamente maior, podendo produzir entre 60% e 120% a mais do que as cultivares disponíveis anteriormente. “É uma planta com arquitetura moderna e boa resistência às principais doenças do arroz, o que permite o cultivo não apenas no Rio Grande do Sul, mas em todo o Brasil”, explica.
Além disso, a cultivar abre novas oportunidades para o país explorar mercados externos de maior valor agregado. “Nem todos os países consomem o nosso arroz agulhinha, que é mais voltado ao mercado interno. Já o arroz preto pode abrir portas para mercados internacionais”, afirma.
Novas oportunidades
Para Colombari, os chamados “tipos especiais” podem ajudar a diferenciar a produção e ampliar as possibilidades de renda para os produtores. “Se o preço de um tipo de arroz cai, outro pode estar em alta, garantindo maior estabilidade econômica”, destaca. Em alguns mercados, o arroz preto pode chegar a custar até dez vezes mais do que o arroz branco tradicional.
A diversificação também pode estimular novos produtos e oportunidades de negócio. “Uma farinha de arroz preto mantém esses compostos fenólicos e possui uma coloração diferenciada. Um bolo feito com essa farinha pode lembrar visualmente um bolo de chocolate e apresentar um sabor levemente amendoado”, exemplifica.
Segundo o pesquisador, a diversificação do arroz é uma estratégia pensada pela pesquisa há anos e pode ajudar o setor a enfrentar momentos de instabilidade no mercado. “A ideia é ampliar os tipos de grãos produzidos no Brasil e abrir novas oportunidades para produtores e consumidores”, conclui.
Sementeiros interessados podem obter sementes básicas para multiplicação. Já indústrias ou produtores que tenham capacidade de beneficiar e comercializar o arroz também podem procurar diretamente a Embrapa para acessar a cultivar.
