Nono ano da Escola Visão visita A Hora do Sul e analisa cobertura de feminicídios

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Nono ano da Escola Visão visita A Hora do Sul e analisa cobertura de feminicídios

Projeto marca os 20 anos da Lei Maria da Penha e propõe reescrita de manchetes para evidenciar os agressores e discutir o papel da linguagem na imprensa

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Nono ano da Escola Visão visita A Hora do Sul e analisa cobertura de feminicídios
A proposta é que os estudantes analisem manchetes reais de jornais impressos, identificando o uso da voz passiva e a omissão dos autores dos crimes (Foto: Nátalli Bonow)

Os alunos do nono ano da Escola Visão estiveram no jornal A Hora do sul nesta quarta-feira (25) como parte do projeto 20 anos da Lei Maria da Penha: histórias de morte matada contadas feito morte morrida. A atividade integra o projeto institucional “Mulheres Visionárias”, que acontece há cinco anos e propõe uma análise crítica da cobertura jornalística sobre feminicídios, com foco na linguagem utilizada nas manchetes.

A proposta é que os estudantes analisem manchetes reais de jornais impressos, identificando o uso da voz passiva e a omissão dos autores dos crimes, e depois reescrevam esses títulos, evidenciando o agressor e responsabilizando-o diretamente.

A professora de Ciências, Jéssica Lopes, explica que o projeto nasce de uma tradição da escola. “A gente inicia o ano letivo com o Mulheres Visionárias, trazendo diferentes perspectivas para dar visibilidade às mulheres. O nono ano está trabalhando especificamente com os 20 anos da Lei Maria da Penha e com os dados crescentes de feminicídio. Eles perceberam que, até alguns anos atrás, muitas vítimas eram invisibilizadas ou até culpabilizadas nas notícias”, afirma.

Segundo ela, a intenção é provocar reflexão sobre como a linguagem molda a percepção social. “Essas mulheres não são apenas números. Na maioria dos casos, são mortas por companheiros ou ex-companheiros, e isso geralmente é o ponto final de um histórico de violências. Quando a manchete omite o agressor, ela também contribui para essa invisibilização”, ressalta.

Entender como a notícia é construída

A visita ao jornal buscou aproximar os estudantes do processo de produção da notícia. Para o coordenador pedagógico do ensino fundamental II, professor Gustavo Domingues, conhecer a rotina da redação é parte essencial da proposta.

“A imprensa ajuda a moldar a forma como a sociedade compreende determinados temas. A gente quer que eles entendam como essas mortes são divulgadas e de que maneira a linguagem pode reforçar ou questionar estruturas sociais”, explica.

Ele destaca que o projeto não busca apenas criticar, mas contextualizar historicamente as mudanças na sociedade e no jornalismo. “Hoje a gente já tem a tipificação do feminicídio, que é um avanço importante. Antigamente, muitas vezes esses crimes eram tratados como ‘crimes passionais’, como se houvesse uma justificativa emocional. A reflexão que a gente quer fazer é sobre o que essas escolhas linguísticas revelam da sociedade de cada época.”

Domingues também reforça o papel da escola na discussão de temas considerados delicados. “São assuntos que mobilizam paixões e que, às vezes, algumas instituições preferem evitar. Mas é justamente na escola que a gente precisa formar cidadãos críticos, capazes de analisar dados, discursos e construir suas próprias opiniões. A educação é um campo fundamental para transformar essa realidade.”

Pesquisa, história e reescrita

O projeto se desenvolve ao longo de duas semanas e envolve diferentes componentes curriculares, como Língua Portuguesa, Produção Textual e História. A turma também visitará o acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas para analisar a linguagem jornalística de outras épocas e comparar com a atual.

Tendo como fio condutor o livro Histórias de morte matada contadas feito morte morrida, da autora pelotense Niara de Oliveira, os estudantes discutem como o discurso jornalístico pode influenciar a percepção da violência.

“A ideia não é fazer uma avaliação do que é certo ou errado, mas perceber os avanços e entender os contextos. O jornalismo, assim como a escola e outras instituições, também evolui com a sociedade. E que bom que hoje a gente consegue ter mais cuidado na forma de tratar esses casos”, acrescenta o coordenador.

Reflexão que atravessa a sala de aula

Para as alunas Alicia Iunes Maciel e Estephani Fernanda Grill Garcia, ambas de 14 anos, o projeto tem provocado reflexões que vão além da escola.

“É triste ver que mulheres do mesmo gênero que a gente são assassinadas. A gente consegue imaginar como se fosse alguém da nossa família”, comenta Alicia.

Estephani destaca o impacto dos dados apresentados em aula. “Mesmo com a lei, os casos continuam aumentando. E muitas mulheres ainda não conhecem seus direitos. Eu achei muito importante a escola trazer esse assunto para a gente.”

Para a professora Jéssica, o retorno dos alunos demonstra que a proposta tem alcançado seu objetivo. “Eles já são uma geração que vem com um olhar mais crítico. Conseguem perceber que o feminicídio não acontece do nada, que existe um histórico de violência. E discutir isso de forma aberta, responsável e fundamentada faz toda a diferença.”

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