A sete dias do encerramento do contrato da Ecovias Sul, previsto para as 23h59min da próxima terça-feira, o polo rodoviário de Pelotas já acumula 14 mortes no trânsito somente em 2026. Três dessas vítimas morreram neste último fim de semana, em ocorrências registradas nas BRs 392 e 116, em trechos sob administração da concessionária.
A sequência de acidentes graves reacende o alerta sobre a segurança nas rodovias da Zona Sul e acirra o debate a respeito da segurança nas estradas no futuro: afinal, como ficará o atendimento de emergência, resgate e sinalização após o fim da concessão?
Uma das notícias mais impactantes das estradas da região envolve a morte de uma criança. Na tarde de domingo, por volta das 12h20min, um menino de dez anos morreu após a saída de pista e capotamento de um veículo no km 507 da BR-116, em Pelotas. O acidente envolveu um carro emplacado no Uruguai. Em levantamento preliminar, foi apontado que o condutor teria dormido ao volante.

Na tarde de domingo, um menino de dez anos morreu após a saída de pista e capotamento de um veículo no km 507 da BR-116 (Foto: Divulgação)
A criança, única ocupante que não utilizava cinto de segurança, foi arremessada para fora do veículo e morreu no local. Além do condutor, outras três pessoas ficaram feridas e foram encaminhadas ao pronto-socorro de Pelotas. O Consulado do Uruguai foi acionado para prestar assistência às vítimas.
Duas mortes e um ferido em Canguçu
Já durante a noite de domingo (22), dois pedestres morreram após serem atropelados por uma caminhonete Amarok, no km 112 da BR-392, em Canguçu, a um quilômetro da praça de pedágio da Glória.
As vítimas foram identificadas como Aldaura Buss, 71 anos, e Gilberto Storch, 60 anos, tia e sobrinho, respectivamente. Eles teriam participado de uma confraternização na comunidade Blass, próxima ao local, e atravessavam a rodovia em direção a um veículo estacionado do outro lado da pista.
Segundo a concessionária, as duas vítimas morreram no local. Os ocupantes do veículo não se feriram. O motorista trafegava em velocidade compatível com o trecho, permaneceu no local, prestou socorro e realizou teste do bafômetro, com resultado negativo.
Ainda em Canguçu, a quatro quilômetros de onde foi o atropelamento, também na BR-392, uma colisão entre dois veículos deixou o condutor de um deles gravemente ferido na madrugada de domingo. A Ecovias Sul informou que a vítima foi socorrida e encaminhada ao pronto-socorro de Pelotas. O motorista do outro carro não se feriu.
Ônibus tomba na BR-293, sem feridos graves
E na manhã desta segunda-feira (23), um ônibus coletivo tombou após estacionar no acostamento no km 16 da BR-293, em Capão do Leão. O coletivo transportava 35 passageiros entre Pelotas e Pinheiro Machado. Duas pessoas sofreram lesões leves. Embora o trecho não esteja sob concessão da Ecovias Sul, uma equipe da empresa foi acionada para realizar a sinalização da via. O acidente trouxe à memória a tragédia registrada no início de janeiro.
Tragédia na BR-116 deixou 11 mortos em janeiro

Em 2 de janeiro, 11 pessoas perderam a vida em tragédia envolvendo ônibus e carreta na BR-116 (Foto: Divulgação)
No começo de janeiro, uma colisão frontal no km 491 da BR-116, em Pelotas, envolvendo uma carreta carregada com areia e um ônibus de linha, deixou 11 mortos e 11 feridos. No caso, um caminhão com bloqueio por GPS estava parado sobre a pista. Ao tentar desviar, a carreta invadiu a pista contrária e atingiu o coletivo. O caso é considerado um dos acidentes mais graves dos últimos anos na região.
Morte em rodovia estadual
Além dos acidentes nas rodovias federais, em 11 de fevereiro, a morte de uma motociclista no km 104 da ERS-265 (fora do Polo Pelotas), em Canguçu, acrescenta ao levantamento de 2026 mais uma fatalidade. Talia Ludtke, de 23 anos, acadêmica de Geografia da UFPel, morreu após colisão transversal entre a motocicleta que conduzia e uma caminhonete.
Atendimento após o fim da concessão
Com exceção do acidente na ERS-265, há registro de atuação ou apoio da Ecovias Sul em todos os casos citados nesta reportagem. Com o encerramento do contrato, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) assume oficialmente a manutenção e a gestão dos trechos das BRs 116 e 392 no polo Pelotas.
O superintendente do DNIT no Rio Grande do Sul, Hiratan Pinheiro, afirmou recentemente que o modelo de atendimento deve seguir o padrão já adotado em trechos não concedidos. “Não haverá mais socorro médico ou mecânico vinculado à concessão, ficando a cargo dos municípios. Em casos de acidentes, a atuação será feita por órgãos como a Polícia Rodoviária Federal (PRF), como já ocorre em rodovias federais não pedagiadas”, explica.
Impacto em tempo de resposta e infraestrutura
Na avaliação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), a corporação acredita que conseguirá absorver a demanda dentro de suas atribuições. Há o reconhecimento, porém, de que a retirada da estrutura da concessionária pode trazer reflexos em tempo de resposta.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) se organiza para atender as rodovias após o fim da concessão. A estratégia envolve integração entre municípios, Corpo de Bombeiros, PRF e a Central de Regulação de Urgência de Pelotas. A instituição também manifesta preocupação com o tempo de resposta.
O Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS) também articula ações com prefeituras, Samu, PRF e Dnit para enfrentar o período sem concessão, reconhecendo limitações estruturais e a necessidade de alternativas para manter o atendimento.
