Obesidade já supera desnutrição

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Obesidade já supera desnutrição

Relatório da Unicef aponta que o excesso de peso entre crianças e adolescentes ultrapassou, pela primeira vez, os índices de desnutrição

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Obesidade já supera desnutrição
Estudo da Unicef acende alerta para a alimentação no período infantil (Foto: Divulgação)

Pela primeira vez na história, o índice de obesidade entre crianças e adolescentes de cinco a 19 anos superou o de desnutrição no mundo. O dado, divulgado em relatório recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pode sugerir, à primeira vista, que a fome diminuiu e que as crianças estão mais bem alimentadas. No entanto, especialistas alertam que o cenário revela uma nova e preocupante face da má nutrição. Os dados apontam ainda que no mundo uma em cada dez crianças ou adolescentes são afetadas, ou seja, 188 milhões.

A pediatra reumatologista Juliana Simon, do Hospital São Francisco de Paula e professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), vai além e destaca que essa relação em 2022 no Brasil, era de uma a cada três crianças e adolescentes brasileiras com obesidade, sendo a região Sul apontando para cerca de 11% obesas, e 36% acima do peso. “Até 2030, o Brasil estará no topo desses indicadores”, lamenta a especialista, que ressalta a necessidade de se romper com a ideia cultural de que criança gordinha é criança saudável. “Obesidade também é uma forma de desnutrição, pois configura a falta de nutrientes. A criança obesa pode ter excesso de calorias, mas deficiência de vitaminas, proteínas e minerais essenciais”, explica.

Ideal é zero adição de açúcar até os dois anos (Foto: Divulgação)

Segundo ela, o problema está diretamente relacionado à substituição da alimentação in natura por produtos ultraprocessados, ricos em açúcar, gorduras e aditivos químicos, mas pobres em valor nutricional.

Alerta

O relatório aponta que uma em cada cinco crianças no mundo está acima do peso. No Brasil, a região Sul lidera os índices de obesidade infantil. Juliana destaca que o fenômeno está ligado ao chamado “ambiente obesogênico”, contexto familiar e social que normaliza o consumo frequente de doces, refrigerantes e porções excessivas.

“Há uma geração de pais que quer compensar frustrações da própria infância oferecendo tudo aos filhos. Mas o ‘não’ também educa. Criar um ser humano dá trabalho”, afirma. Ela ressalta que muitos responsáveis abandonam o acompanhamento pediátrico após os dois anos de idade, perdendo a oportunidade de monitorar o crescimento e intervir precocemente. “Quando percebemos, o trem já saiu do trilho.”

Observar no rótulo

A médica orienta que, no supermercado, a regra prática é simples: “descascar mais e desempacotar menos”. Alimentos ultraprocessados são aqueles que passam por múltiplas etapas industriais e recebem adição de açúcar, gordura, sódio, corantes e conservantes.

Outro ponto importante é observar a lista de ingredientes: quanto maior a lista, maior a chance de o produto ser ultraprocessado. Além disso, os primeiros itens descritos são os que aparecem em maior quantidade.

“Às vezes a embalagem diz ‘morango’, mas o primeiro ingrediente é açúcar. A tarja frontal que indica alto teor de açúcar, gordura ou sódio já foi um avanço importante”, avalia.

Primeiros mil dias são decisivos

A recomendação é que, até os dois anos de idade, a criança tenha contato mínimo com ultraprocessados e zero adição de açúcar. O período que vai da gestação aos dois anos, conhecido como “primeiros mil dias”, é fundamental para o desenvolvimento cognitivo e para a formação do paladar.

“Nessa fase, a criança precisa aprender a comer frutas, legumes, verduras e proteínas adequadas. Se ela não for exposta ao doce, não sentirá falta. Existem crianças que recusam refrigerante porque simplesmente não foram acostumadas”, relata.

A médica reconhece que há desafios sociais e econômicos, já que, em alguns contextos, produtos industrializados são mais acessíveis do que alimentos frescos. Ainda assim, defende pequenas mudanças possíveis dentro da realidade de cada família.

Consequências que começam cedo

Lista de ingredientes deve ser levada em conta (Foto: Divulgação)

As repercussões da obesidade infantil não se limitam à estética ou ao futuro distante. Juliana afirma que já é possível observar, na infância e adolescência, casos de hipertensão, resistência à insulina, dislipidemia e esteatose hepática (gordura no fígado), condição que pode evoluir para cirrose e até aumentar o risco de câncer.

Do ponto de vista reumatológico, a especialista chama atenção para dores articulares por sobrecarga de peso e para deficiências vitamínicas, como a de vitamina C, que podem causar inflamações articulares e simular doenças autoimunes.

“Também vemos dietas pobres em cálcio e vitamina D, associadas ao sedentarismo. Isso pode levar à osteopenia na juventude e aumentar o risco de osteoporose precoce”, explica. Ela destaca ainda possíveis impactos cognitivos relacionados à deficiência de nutrientes como ácido fólico, colina e ômega 3, fundamentais para o desenvolvimento cerebral.

Saúde mental

Brasil pode estar no topo da obesidade em 2030 (Foto: Divulgação)

Além das complicações metabólicas, a obesidade infantil tem forte impacto emocional. Crianças acima do peso estão mais vulneráveis ao bullying, ao isolamento social e ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade, depressão e distúrbios alimentares. “É um problema de saúde física e mental. Muitas vezes a raiz está lá atrás, em hábitos que poderiam ter sido ajustados na primeira infância”, observa.

Rotina familiar

A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa para crianças e adolescentes. Na prática, porém, o que se vê é o predomínio de telas e sedentarismo. “As crianças não gastam a energia que consomem. Passam horas em frente à televisão ou ao celular. Comer diante da tela favorece comportamento compulsivo”, alerta. Para a médica, cozinhar em casa e envolver os filhos no preparo dos alimentos ajuda a criar uma relação mais saudável com a comida. “Alimentação também é afeto e cuidado.”

Papel da Família

Juliana reconhece que a responsabilidade é coletiva, envolve famílias, profissionais de saúde, escolas e políticas públicas, mas reforça que mudanças começam dentro de casa.

Entre as orientações práticas, ela recomenda:

  • Acompanhar regularmente as curvas de crescimento na caderneta de saúde;
  • Reduzir o consumo de ultraprocessados;
  • Evitar açúcar até os dois anos de idade;
  • Incentivar atividade física diária;
  • Oferecer exemplo, adotando hábitos saudáveis em família.

 

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