O primeiro bloco da Lelê

Opinião

Helena Tomaschewski

Helena Tomaschewski

Estudante de Direito

O primeiro bloco da Lelê

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Desde o meu primeiro ano de vida, meus pais me levam a bailes de Carnaval. Deixo a foto da minha primeira fantasia na penteadeira: um palhaço, com penteado e maquiagem – sim, eu estava com um pouco de maquiagem no primeiro ano de idade. Já me transformei em muitas coisas: onça, cowboy, coelho, borboleta, alien…

Sempre gostei de seguir o tema Carnaval: a possibilidade de me transformar em qualquer outro ser. Mesmo adolescente, quando me tornei “adulta demais” para me fantasiar e as meninas da minha idade só usavam glitter, sentia falta da transformação.

Então, em 2024, com meses de antecedência para o carnaval de 2025, comprei fantasias para usar junto com o abadá. Com o tempo, dei-me conta da minha própria insignificância e percebi o quanto eu amava o poder de ser qualquer outra pessoa. O processo de me arrumar, maquiar, fazer penteados. Todo o ritual passado pela minha mãe, que me tinha como a boneca que ela não teve quando criança e um pouco da criança que ela não pôde ser. Todo o valor da bolsa do meu estágio se foi em luvas com franjas, chapéus, asas, saias… Eu separei as referências de maquiagem, penteados e roupas em pastas no meu celular: dia um, dia dois e dia três. Em novembro, tudo estava devidamente guardado na gaveta.

Em fevereiro de 2025, acordei na UTI do hospital, sem saber o porquê de estar ali. Com pouquíssimas memórias. Eu acordava e apagava, sem conseguir perguntar nada e muito menos entender a realidade.

Sempre tive a vontade de lembrar da minha primeira visão quando bebê, das primeiras memórias. Graças à minha internação, eu tive quase a mesma experiência. Meu pai me olhando fixamente, sorrindo, emocionado, segurando a minha mão como se fosse a primeira vez que estivesse me vendo:

– Chorei tudo o que não tinha chorado quando tu nasceste.

Naquele fevereiro de 2025, quando “nasci de novo”, as pessoas me falavam: “ainda bem que voltaste como tu é”.

Eu entendia o que elas queriam dizer. Mas, depois que se passa por duas UTIs, um mês de hospital, ninguém volta como entrou.

Uma das minhas primeiras perguntas, quando ainda estava na cama, foi sobre o meu abadá, se tinham buscado com a costureira, quando iríamos para o Carnaval. Ninguém tinha coragem de dizer que naquele ano eu não teria carnaval. Então, com vinte anos, foi meu primeiro ano sem Carnaval em fevereiro. Todo 2025 foi focado na minha epilepsia e no meu tratamento.

Mas, em outubro, no meu aniversário, não tinha nenhuma outra opção senão fazer o meu Carnaval. Eu nunca aceitaria um ano sem esse “feriado”. Então nasceu o “Bloco da Lelê”. Com abadás cor-de-rosa, meu nome, no meu bar preferido, com samba e todos que eu amo e que não estariam no carnaval de fevereiro, mas estavam no meu bloco.

Ali foi o outro primeiro Carnaval da Helena. O primeiro dos meus pais com a nova Helena – e, honestamente, acho que eles aproveitaram muito mais do que quando eu tinha um ano de idade.

Meus pais não tinham o costume de pular Carnaval depois de se tornarem pais, de saírem sozinhos. Hoje, o mês de fevereiro tem novo significado para a família, e não temos outra opção além de pularmos juntos.

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