O município de Pelotas tem uma grande oportunidade de não repetir erros do passado, quando criou pequenos bairros sem focar no planejamento urbano ideal. Em breve, 250 imóveis (casas) começarão a ser construídos na Zona Norte da cidade, no loteamento Raulino Cardoso I, vinculados ao programa Minha Casa, Minha Vida. Se considerarmos quatro moradores por habitação, estamos falando de mil crianças, adolescentes, adultos e idosos que passarão a viver nessa área onde, hoje, existe apenas campo. E aí está a oportunidade para o Poder Público fazer o certo quando a ocupação urbana acontece de forma organizada.
Os próximos contemplados pelo programa habitacional popular vão formar um enorme núcleo de moradores, com necessidades básicas: educação, saúde, transporte, alimentação, segurança, lazer, saneamento e tudo mais que rege a vida em coletividade. Com um diferencial: todos muito dependentes do serviço público.
E chegamos ao ponto de reflexão. Com previsão de entrega entre 2027 e 2028, o município tem esse prazo para suprir as carências que hoje estão à mesa. Não adianta esperar a entrega das chaves para começar a pensar em alternativas. É necessário agir de forma antecipada, sob risco de as adaptações posteriores acontecerem por conta, com improvisos e descontroles.
O primeiro exemplo pode ser a educação. Teremos crianças e adolescentes — centenas — que vão precisar estudar em escolas de ensino fundamental e médio próximas. A Amílcar Gigante, na avenida Zeferino Costa, é hoje a única daquela região a atender os jovens nos anos finais antes de uma faculdade e não dispõe de espaço para abrir novas turmas sem receber investimentos de ampliação física. Sequer uma quadra esportiva sem cobertura possui para a prática de atividades físicas. O governo do Estado já tem o pedido, mas quanto tempo até dar o ok e o projeto acontecer? Já a Francisco Caruccio, uma das maiores da cidade, também precisa ser preparada antes de receber qualquer contingente mais volumoso.
Será preciso também pensar na saúde dos futuros moradores. As Unidades Básicas da região do Pestano e Getúlio Vargas conseguirão dar suporte a uma demanda expressiva, com data para acontecer? Gente muito dependente ainda do ônibus para os deslocamentos diários, assim como do uso de bicicletas, o que expõe a necessidade de se pensar em ciclovias.
Estamos falando de famílias com renda bruta mensal de até R$ 2.850,00, mulheres chefes de família, pessoas em situação de risco/vulnerabilidade, idosos e pessoas com deficiência.
Caberá ao Poder Público, da mesma forma, garantir o abastecimento e a rede de esgoto, sem que os percalços comuns às áreas mais afastadas se repitam: a baixa pressão e a falta d’água em períodos do ano. Como o Sanep debate o tema?
E o que será disponibilizado em lazer, cultura e acessibilidade? Até mesmo a oferta de sombra, a arborização das ruas que serão criadas, passa por análises necessárias.
Quando a faixa do loteamento Raulino Cardoso I for descerrada, daqui um ano e meio, o Poder Público de Pelotas terá a oportunidade de entregar casas para 250 famílias ou lares completos, com serviços básicos prontos para serem usados. A primeira opção com consequências a curto prazo e a segunda com toda a dignidade a que os cidadãos têm direito — se, até lá, a palavra planejamento nortear o dever de casa.