Adriana Noronha e João Marcos, o Negrinho Martins são os fundadores do projeto Orquestrando Sonhos, projeto que une música e educação para transformar a realidade da população em vulnerabilidade social.
Quando vocês tiveram essa ideia e como chegaram até hoje?
Nós temos essa vontade há muito tempo. Nós dois somos casados, não temos filhos, né? Então, sempre o Negrinho fazia contrapartidas sociais e nós íamos pro social. E gostávamos muito de fazer. Na pandemia, a gente se deu conta que a gente precisava fazer mais e algo efetivo que ficasse num contraturno, que realmente a gente conseguisse trazer. Lá em 2017, nós formamos a Camerata Negrinho Martins, que era para absorver pessoas que vinham, os jovens que vinham já da orquestra do Areal, orquestra municipal, que eles se formavam e não tinham mais onde tocar nem como trabalhar. E aí se perdia todo aquele saber, todos aqueles anos. Em 2022 a pandemia nos deu uma sacudida. O que nós vamos deixar delegado nesse mundo? E a gente já sabia que funcionava, porque os nossos professores de hoje foram esses alunos lá de 2017. E hoje formados, se formando, outros na OSPA, andando já por aí, já estão voando. Nós temos a Camerata, a Matu, que é a maturidade. Ensino de contraturno de maneira contínua que estamos atuando na Z-3, no Dunas e também esse ano vamos começar no Alfredo Dub, vai ser um desafio pra nós trabalhar com não-ouvintes. Mas lembrando que a música é vibração.
Como é que vocês chegam nesses locais? E como é que a comunidade também pode fazer parte dessa família aí do orquestrando?
Como a gente trabalha muito com cordas friccionadas, que são os instrumentos de orquestra, também o sopapo e outros instrumentos, têm um estigma de que não é para qualquer pessoa, que é muito difícil. Então, a gente trabalha para dizer que sim, que todo mundo pode pegar um violino na mão, não tem raça, não tem gênero. Tu tens direito àquele instrumento. E o Orquestrando Sonhos é para orquestrar qualquer tipo de sonho. Pode ser para ter pertencimento, pode ser para ser um grande músico como nós temos alguns alunos muito promissores. Mas pode ser como a nossa Luísa, que passou pra medicina na UFPel, com uma bolsa do Fleming. É sobre isso. E ela só vai conseguir ficar na medicina porque ela trabalha na Camerata e dá aula conosco. E o dia que ela tem que estudar, a gente substitui, a gente vai ajudando assim. A gente consegue atender os pais também, até daí surgiu a ideia da lojinha.
Como ela funciona?
A lojinha é uma ideia que tivemos há uns dois anos para as mães, que até virou um projeto da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Estado, eles viram que a gente tinha a ideia de fazer uma oficina de luthieria, porque nós não temos luthiers aqui no Sul do Estado. E nós temos que levar os instrumentos ou trazer um luthier de Porto Alegre, de Santa Rosa, para cá. E aí a ideia era que as mães solo pudessem fazer essa formação. Com esse projeto nós fomos para o South Summit. Muitos pais são apenados, adictos. Então é bem difícil, e às vezes, não tem oportunidade. Eu penso que uma mãe no projeto é uma criança no projeto. E nisso nasceu a lojinha. E agora estou conversando com o Sesc, para a gente reaproveitar, todos os banners do nosso festival, e nós transformamos em bolsas, malas, cases, necessaire. Então, a gente recicla, elas trabalham e ganham pra isso.
