A discussão sobre a publicidade de apostas esportivas ganhou força no Congresso após a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovar um projeto que restringe anúncios, patrocínios e promoções de jogos online. O texto ainda precisa passar por outras etapas, mas já acende um debate que envolve economia, liberdade individual e, principalmente, saúde mental.
Do ponto de vista psicológico, a propaganda tem impacto direto no interesse do público. Segundo o psicólogo Gustavo Costa, o formato atual das campanhas estimula a naturalização do risco. “A publicidade de casas de apostas foca na normalização do risco e relaciona confiança ao uso de nomes e pessoas conhecidas. O cérebro passa a ver isso com naturalidade e entende que o risco é baixo”, diz.
O especialista explica que a exposição constante mantém o sistema cerebral de recompensa em alerta, facilitando a experimentação. Para muitas pessoas, a repetição da propaganda gera a sensação de que a prática não oferece perigo.
Como a propaganda pode estimular apostas?
Conforme o psicólogo, alguns mecanismos são especialmente acionados:
- Reforço intermitente: a incerteza do ganho pode ser mais viciante que a certeza.
- Ilusão de controle: quem gosta de esportes pode acreditar que “entende” do resultado e que a aposta é segura.
- Viés de disponibilidade: destaque para ganhos e pouca ênfase nas perdas, que costumam ser maioria.
Segundo Costa, essa combinação cria um cenário arriscado. Ou seja, a pessoa é estimulada pelo risco, pode ganhar ocasionalmente e passa a acreditar que controla a situação, ignorando os prejuízos reais.
Restrição reduz danos, mas não resolve
Para o especialista, limitar a publicidade pode ajudar, mas não é solução isolada. “A restrição age como redução de danos. Não resolve totalmente o impacto psicológico, mas reduz gatilhos de impulso, especialmente para quem já tem predisposição ao vício”, considera.
Ele acrescenta que a menor exposição diminui a pressão sobre áreas cerebrais ligadas ao controle e ao julgamento crítico. Ainda assim, defende ações educativas e prevenção como medidas complementares.
Jovens são mais vulneráveis
O psicólogo também aponta que adolescentes tendem a ser mais suscetíveis aos “jogos de azar” e, consequentemente, às propagandas. “O cérebro jovem é como um carro com motor potente, mas com o freio ainda em instalação. A busca por gratificação imediata e aceitação social facilita a influência da propaganda.”
Influenciadores digitais e mensagens associadas a sucesso ou confiança podem, segundo Costa, reduzir a análise crítica e transformar a aposta em porta de entrada para riscos financeiros, emocionais e familiares.
Quando o jogo deixa de ser diversão?
Entre os sinais de alerta citados por Costa estão:
- Uso das apostas como fuga de problemas ou tensões;
- Tentativa constante de recuperar perdas financeiras;
- Irritabilidade, dificuldade de concentração e conflitos familiares;
- Vergonha ou medo de falar sobre prejuízos.
Debate político segue dividido
No campo político, não há consenso sobre restringir a publicidade. Em entrevista ao programa Debate Regional, da Rádio Pelotense, o deputado federal Daniel Trzeciak (PSDB) defendeu cautela antes de proibições mais rígidas. “Se essa empresa paga imposto, qual é o problema? Qual é a diferença de uma ‘bet’ para jogos da Caixa Econômica ou outras loterias legalizadas?”
O parlamentar afirma que o foco deveria ser combater jogos ilegais e garantir regras claras para o setor. “O que não pode é jogo clandestino. Precisamos de legislação dura para quem não paga imposto, mas com maturidade nesse debate.” Ele reconhece, porém, que o endividamento ligado ao jogo pode gerar problemas sociais e familiares, defendendo mecanismos de controle e fiscalização.
O projeto que restringe a publicidade ainda passará por novas análises no Senado antes de seguir para eventual votação definitiva.
