Em 1987, Rio Grande viu a Fábrica Rheingantz se consolidar como uma referência na indústria têxtil da América Latina, pelo projeto audacioso e por ser a fonte de renda para cerca de dois mil funcionários. Os áureos tempos quase se perderam com o fim das operações na década de 1980.
Com mais de 100 anos de história, muitas memórias seguem vivas em fotos e depoimentos de quem trabalhou e conviveu com ex-funcionários. Pelos relatos da avó, a rio-grandina Vanessa Costa foi movida pela curiosidade desde a adolescência e escolheu o curso de Arqueologia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) como caminho profissional.
Aqueles relatos que a fascinavam uniram-se a memórias de tantas outras operárias da fábrica que se tornaram uma tese de doutorado. Agora, todo esse material ganha vida novamente no projeto “Patrimônio Industrial e Memória Operária Nova Rheingantz”. Vanessa é a responsável por transportar no tempo – através das histórias e objetos originais preservados – turistas, estudantes e a comunidade a viverem uma experiência única. As visitas são agendadas pelo (53) 98412-6116 ou pelo @novarheingantz.
As pessoas podem ver peças originais que estão lá no mesmo lugar. Como é essa viagem no tempo?
Começo contando a história da fábrica, vemos a exposição com tecidos, cobertores, casacos e ponchos produzidos além de objetos como fotografias de ex-operárias e ex-operários. Depois passamos pelos antigos setores como caldeirarias, classificação da lã, tecelagem, contando a história de cada um deles. Alguns momentos são imersivos, em que colocamos os sons da fábrica, o barulho dos teares, o apito, que sempre desperta muitas memórias, essas narrativas foram contadas pelas ex-operárias. É um trabalho que foi feito em conjunto com elas no âmbito da minha tese de doutorado.
O passeio também é voltado às escolas, para uma geração que não viu a fábrica, mas que certamente tem alguém próximo com uma história no local….
Durante as visitas, trago uma abordagem mais dialógica com as pessoas. E, quando são estudantes, sempre pergunto se eles têm algum familiar que trabalhou na fábrica, se algum dos familiares deles ainda guardam os artigos têxteis, para eles se sentirem pertencentes a esse patrimônio, que é parte da identidade deles também. Não é algo que ficou estático no passado, mas que faz parte da identidade operária, porque Rio Grande é uma das cidades que tinha um número imenso de fábricas e também de sindicatos.
Qual o sentimento de ver algo que começou na adolescência se tornar um projeto de memória?
É muito recompensador conversar com essas pessoas que vivenciaram esse passado, porque consigo compreender como que a fábrica funcionava pela perspectiva e olhar delas. Quando elas contavam as histórias, imaginava as máquinas funcionando, como que era o trabalho, o apito da fábrica tocando, elas produzindo os tecidos, sinto esse movimento na fábrica como se elas estivessem vivas novamente. E esse é o objetivo da Nova Rheingantz.