Fica Ahí celebra 105 anos como símbolo da resistência negra na Zona Sul

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Fica Ahí celebra 105 anos como símbolo da resistência negra na Zona Sul

Apesar dos desafios, entidade mantém sua missão de levar entretenimento, cultura, acolhimento e reverência à ancestralidade

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Fica Ahí celebra 105 anos como símbolo da resistência negra na Zona Sul
Cláudia Mendes diz que clube continua atento a toda a forma de discriminação, lutando sempre contra o preconceito com atividades culturais. (Foto: Jô Folha

Fundado em 27 de janeiro de 1921, em Pelotas, o Clube Fica Ahí para Ir Dizendo completou 105 anos reafirmando seu papel como uma das mais importantes instituições da comunidade negra da Zona Sul do Estado. Criado inicialmente como cordão carnavalesco, com ponto de encontro na praça Coronel Pedro Osório, o clube nasceu da necessidade de homens e mulheres negros terem um espaço próprio de convivência, organização e afirmação em uma cidade marcada por restrições raciais.

A transformação de cordão em clube cultural estruturado foi, segundo a vice-presidente Cláudia Mendes, resultado direto desse contexto. “Havia a necessidade de pessoas negras terem um local próprio para suas confraternizações, reuniões e debates, buscando soluções para os problemas enfrentados na época. Era uma forma de ampliar a presença negra na sociedade pelotense”, afirma.

Ao longo das décadas, o Fica Ahí se consolidou como referência social. Congregando o que se convencionou chamar de “elite negra” da cidade, adotava rigorosos padrões de vestuário e comportamento, numa estratégia de afirmação diante da exclusão racial. “Acredito que foi justamente por essa exclusão que nossa comunidade sentiu a necessidade de mostrar que também tinha condições financeiras e formação educacional. Era preciso ter um lugar próprio para comemorar, já que muitos espaços brancos nos eram negados”, explica Cláudia.

Em 1953, o lançamento da pedra fundamental da sede própria, na rua Marechal Deodoro, representou um marco simbólico e material. O prédio, hoje tombado há cerca de 20 anos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estadual (Iphae), com proteção de fachada e volumetria, foi erguido gradualmente com recursos arrecadados em eventos promovidos pelos próprios sócios. “Nas décadas de 1920 e 1930, eles faziam almoços e atividades para comprar o terreno e construir o prédio. É um esforço coletivo que inspira até hoje”, destaca Alisson Correa, presidente do Conselho Deliberativo.

Atuação na comunidade

A sede abrigou iniciativas culturais e educacionais, como a Escola Primária Doutor Francisco Simões e a primeira biblioteca negra da região, hoje em processo de reativação após obras na parte inferior do prédio. Apesar do foco na socialização, por meio de bailes, festas e quermesses, ao longo dos anos, a entidade também já teve atuação nos esportes no município, uma forma de manter laços com associações classistas e esportivas da época.

O clube também teve atuação política relevante, denunciando casos de racismo já em 1927 e se mantendo, segundo Cláudia, “atento a toda forma de discriminação, promovendo debates e apoio às vítimas”.

Porém, nem sempre o caminho foi estável. Crises financeiras e um negócio malsucedido quase levaram o imóvel a leilão. Um acordo judicial garantiu a preservação do CNPJ da instituição e a manutenção das atividades, ainda que com limitações no uso do salão principal por cerca de dez anos.

Resiliência

Em dezembro de 2024, o processo judicial chegou a um acordo, depois de pouco mais de dois anos de luta para que o prédio histórico não fosse a leilão por causa de uma dívida de R$320 mil. A decisão foi homologada pela juíza Rita de Cássia Muller, da 5ª Vara Civil de Pelotas. “Não é reinvenção, é resiliência. Nossa comunidade é sedenta por conquistas, sempre buscando libertação e desenvolvimento e não é a lei que nos propicia isso, é sim nosso próprio esforço e assim é o Clube, estamos sempre em busca do melhor”, resume a vice-presidente.

Nesse momento crítico, claro surgiram dúvidas e críticas. “Nem sempre temos o apoio da comunidade negra, porque os que criticam são os mesmos que nunca aparecem, nem para as atividades propostas e muito menos para ajudar, até mesmo quando realizamos eventos gratuitos. É mais fácil criticar do que se fazer presente. Quando quase perdemos nossa sede, foram poucos os que nos procuraram para saber de que forma poderiam ajudar, depois de um acordo com o credor, que está longe de ter sido o que queríamos – foi o que pudemos fazer – brotaram críticos à decisão, mas nenhuma solução diferente foi apresentada. Mas, sempre há pelo menos uma dúzia de pessoas que trabalham voluntariamente para manter as portas abertas”, fala Cláudia com o apoio da secretária do Clube, Maria Teresa Barbosa, que está há anos no Fica Ahí e hoje vê os bisnetos participando da vida social da entidade.

Cordão volta a desfilar

Em 2025, o clube também celebrou a retomada de seu cordão carnavalesco, inativo por cerca de 50 anos. O desfile reuniu aproximadamente mil pessoas, superando expectativas e reafirmando o vínculo histórico com o Carnaval. Esse ano o Cordão foi para a rua novamente, no dia 7 deste mês, ainda mais fortalecido. Em ambos os desfiles, o Fica Ahí teve a parceria do Chove Não Molha, outra entidade criada pela comunidade negra, em 1919, como cordão carnavalesco.

Com a retomada desta iniciativa, a atual diretoria, além de reativar as raízes da entidade, busca estimular a presença, especialmente, das novas gerações no clube. “É uma forma de aproximar gerações, trazer de volta pessoas que estavam afastadas e apresentar essa história aos mais jovens”, destacou a diretora executiva do Fica Ahí e integrante da comissão organizadora, Luana Gomes Costa, filha da presidente, Teresa Gomes Costa.

Família e memória

Atualmente a diretoria do Fica Ahí é formada por mulheres nos principais cargos. Além da presidente, Teresa Costa, e da vice, Cláudia Mendes, ainda participam: Maria Teresa Barbosa, primeira secretária; Luana Costa, segunda secretária; Noemia Barros, Magda Silveira e Rosana, diretoras sociais; Vivian Oliveira, diretora Jovem; e Karolina Mendes, diretora Cultural. Todas com uma longa história de vida dentro do Clube. “Fui levada a conhecer o clube (há 27 anos), por uma família de amigos. A partir daí minha filha foi convidada a ser titulada do clube, com 4 anos, de lá para cá ela teve vários títulos no Clube, entre eles o de Duquesinha e de Rainha e eu fui secretária e diretora social por várias gestões. Hoje, estou vice-presidente e minha filha Karolina é diretora de Cultura, uma trajetória da qual muito nos orgulhamos”, fala Cláudia.

Uma diretoria que deseja manter a relevância da entidade centenária, mantendo sua missão original: ser espaço de união, acolhimento e reverência à ancestralidade. “Sem esquecer o passado, trabalhamos o presente e o futuro”, afirma Cláudia. Para a comunidade negra da região, o clube segue como símbolo de permanência, memória e luta por reconhecimento.

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