Valor Sentimental, de Joachim Trier

Opinião

Renato Cabral

Renato Cabral

Crítico de cinema e membro da Abraccine www.calvero.org

Valor Sentimental, de Joachim Trier

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Com a chegada da temporada do Oscar, finalmente chegaram às salas de Pelotas alguns títulos que ficaram esquecidos no ano passado. Um deles, que se faz necessário destacar e já está na segunda semana de exibição, é o que considerei o melhor filme do ano passado na lista publicada aqui em janeiro: Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier.

Um filme sutil, de retrato sóbrio ao narrar como os traumas atravessam gerações de uma mesma família. Com influências diretas de Ingmar Bergman — não apenas pelo viés psicológico apresentado no roteiro, mas também visualmente —, Trier cria um filme sobre sentimentos e pessoas. Homenageia, sim, Bergman, mas desenvolve um cinema próprio que gera conversas e reflexões entre suas obras. Trabalho, maternidade ou paternidade, ausências e tudo o que deixamos não dito ou não feito podem ser o chamariz para muitos problemas — algo que reverbera em sua trilogia de Oslo, um feito que vale ser resgatado após, ou mesmo antes, de assistir a Valor Sentimental.

Neste filme de 2025, somos apresentados a uma casa e ao seu poder simbólico como local de passagem, trauma e também de conexão com o passado, a memória e o esquecimento. Duas irmãs, Nora e Agnes, encontram-se no velório da mãe e aguardam, céticas, a aparição do pai, Gustav, diretor de cinema e já separado da falecida. Elas não o veem há bons anos, e talvez a palavra separação seja muito neutralizadora, pois o patriarca, na verdade, simplesmente saiu porta afora um dia e nunca mais voltou.

Como a fruta não cai muito longe do pé, Nora se tornou atriz — mas sem buscar o pai para firmar sua carreira e objetivos. Assim, ao reaparecer, Gustav propõe que Nora estrele seu mais novo filme, depois de anos sem filmar, algo que ela declina prontamente. Ao longo da obra, pai e filhas encaram não apenas a digestão do passado, mas também tomam consciência de que somos o resultado dos nossos atos e, em parte, dos atos dos que vieram antes de nós. Logo, como dizem os psicanalistas, é quase dever de um filho ou filha superar pai e mãe. E, muitas vezes, o único jeito de superá-los é quebrar um ciclo traumático.

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